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Rádio e TV 
 

 Carmen Moreira de Castro Neves1


PRÓXIMA ATRAÇÃO: A TV QUE VEM AÍ 

Prepare-se, caro educador. A televisão digital interativa está chegando e vai afetar sua escola e sua vida. É mais um desses avanços tecnológicos que surgem, independentemente das vontades individuais. A TV digital interativa é uma integração do sistema clássico da TV com o mundo das telecomunicações, da informática, permitindo o acesso à internet e à informação, facilitando a interatividade.

Na TV digital, além de melhor qualidade de som e imagem, transmitem-se dados na forma de vídeo, áudio, gráfico, imagem e texto. Assim, pela televisão, será possível uma série de vantagens e serviços, como ter acesso a bancos, lojas, supermercados, revistas, sinopses e grades de programas, discursos de seu político favorito e outros. Mais do que isso, o telespectador deixa de ser um observador passivo e passa a ter o controle de como quer assistir à TV, em que horário quer  acompanhar determinada novela e, ainda, interage com os programas transmitidos. As emissoras poderão regionalizar sua programação, enviando, por exemplo, um mesmo programa com trilha sonora diferente para cada região do país. Será mais fácil realizar transações comerciais e, claro, manipular mais e melhor corações e mentes, com a TV digital. Eis o lado inquietante dessa evolução.

No lado bom, há a possibilidade de ampliar-se o alcance social das tecnologias, favorecendo a inclusão digital de camadas mais carentes da nossa sociedade que, hoje, segundo dados do IBGE, contabiliza 90% dos lares com aparelho de televisão, mostrando o elevado grau de aceitação de que essa mídia dispõe.

Justamente nesse lado bom da evolução da tecnologia está sua aplicação à educação. Neste texto não tratarei de questões de infra-estrutura tecnológica e sim de alguns aspectos relativos a conceitos e conteúdos que estarão na TV digital interativa e que afetarão diretamente educadores e alunos de nossas escolas. Ignorar esses novos caminhos será abrir mão de inúmeras e riquíssimas oportunidades educacionais.

Como as discussões ainda são muito novas, é importante que os educadores estejam sintonizados, participando e influindo. Assim, levanto alguns pontos para que gestores e professores reflitam e sejam artífices desse momento e não meramente receptores.

Em um canal como a TV Escola, totalmente dedicado à educação, a chegada da TV digital interativa trará três grandes mudanças, envolvendo os seguintes processos:

1°. distribuição e disponibilização dos programas;

2°. produção de programas e de conteúdos pedagógicos;

3°. capacitação - forma de apropriação da TV digital interativa por parte de educadores e                          alunos.

O primeiro processo a ser modificado diz respeito à forma como hoje são distribuídos filmes, vídeos e programas. Os programas ficarão armazenados no set top box, permitindo ao educador ler informações sobre eles e assistir e gravar somente o que for de seu interesse. Além da distribuição pela grade, cada filme, vídeo ou programa digitalizado permanecerá em uma central, permitindo sua utilização em outras ocasiões.

Mas a grande novidade é a disponibilização. Esse novo processo significa uma espécie de videoteca em que cada programa será armazenado, não só na íntegra, mas também em diversos segmentos (como hoje se vê em um DVD), permitindo ir direto a uma determinada cena, sem necessidade de acelerar ou retroceder o DVD. Imagine uma tangerina. Você pode comê-la inteira. Mas pode querer só alguns gomos. Cada gomo é um objeto. Você pode colocá-lo em uma salada, suco, sobremesa ou guardá-lo para comer mais tarde. A partir do conceito de disponibilização, os vídeos estarão catalogados e armazenados em múltiplos objetos, facilitando usos variados e combinados.

Além dos filmes, haverá imagens, músicas, sons, textos, permitindo aos educadores e alunos a montagem de seqüências próprias. Por exemplo, podem ser misturadas imagens de arquivos da TV Escola com imagens captadas pela própria escola, incluindo uma trilha sonora composta por alunos ou por artistas locais. Pense a respeito. Faça projeções sobre como será possível fazer produtos que retratem seus estudantes, sua escola, sua localidade... Quantas idéias – suas e de seus alunos – podem ser postas em prática, a partir dessa realidade? As possibilidades pedagógicas da disponibilização somente serão limitadas por nossa criatividade.

Em conseqüência dessas transformações, o segundo processo que se modifica é o de produção de programas e de conteúdos pedagógicos. Os vídeos produzidos pela TV Escola devem sofrer mudanças em todas as suas fases, incluindo concepção, pesquisa, roteiro, elaboração, sonorização, edição, organização do material "excedente", veiculação e disponibilização.

Os programas, filmes e vídeos devem ser desenvolvidos em linguagem multimídia, acompanhados de conteúdos expandidos, ou seja, textos, revistas, imagens, áudios, links, objetos de aprendizagem para uso em CD Rom e internet, entre outros. O uso desses recursos deverá subsidiar alunos e educadores em produções escritas, vídeo, rádio, CD Rom, internet e, em breve, produtos para celulares.

O terceiro processo a ser modificado é a capacitação. Nunca é demais ressaltar que nenhuma inovação acontece se as pessoas forem resistentes a ela. Quando a inovação se impõe sem a capacitação dos sujeitos, temos o que Paulo Freire chamava de consciência mágica, que é o oposto de consciência crítica.

A TV digital valoriza a autoria e favorece o exercício da autonomia. Este é seu grande valor educacional e, portanto, humano. Concretizar esse desafio exige que a escola assuma como sua a tarefa de educar para o uso das mídias.

Do ponto de vista dos gestores educacionais (nos níveis nacional, estadual, municipal e das escolas), quais as principais implicações das mudanças nesses três processos?

Primeiramente, é preciso incorporar a idéia e o conceito de integração de mídias digitais e montar, nas escolas, laboratórios que incluam equipamentos, hardware e softwares capazes de permitir a captação de som e imagens bem como o desenvolvimento de produções personalizadas.

Conseqüentemente, uma segunda implicação é a construção de novos referenciais de financiamento para laboratórios, produções e capacitações, uma vez que esses processos passam a ser multimídia. Pegue-se, por exemplo, o custo atual de um programa de 12 minutos para a TV. Qual o novo custo, uma vez que ele inclua todas as expansões já indicadas anteriormente? Paralelamente, deve-se investir nas antenas e set top box da TV Escola Interativa, modernizando os equipamentos distribuídos, em sua maioria, em 1996 e garantir continuidade ao Proinfo - Programa Nacional de Informática na Educação, ao Rádio Escola e ao RIVED.

Finalmente – e diante de tantos desafios humanos e financeiros –, é necessário sensibilizar outros setores do Poder Público e a iniciativa privada para que considerem educação como um compromisso de Estado e da sociedade em geral. A colaboração desses setores com o MEC e com as secretarias de educação facilitará a implantação de uma infra-estrutura tecnológica capaz de alcançar e conectar as escolas públicas – uma rede de alta capilaridade, espalhada em todos os 5.561 municípios brasileiros. Se alcançarmos os cerca de 50 milhões de brasileiros que estudam e trabalham nas redes públicas de ensino básico e se as escolas abraçarem também os pais e a comunidade em geral, o Brasil será um País socialmente mais justo e economicamente mais desenvolvido.

Enquanto essas mudanças não acontecem de fato, o que os educadores podem fazer?

Há muito que já pode ser feito. Comece refletindo sobre a importância da TV digital interativa: a passagem de receptor para produtor, de ouvinte para autor. Promova uma reunião e discuta com seus colegas de escola sobre como uma pessoa pode ser manipulada pela mídia, se não tiver um espírito crítico. Peça a um professor de História que conte como governos totalitários usam a mídia para promover suas idéias. Você pode replicar essa idéia com seus alunos.

Exercite sua criatividade e a interdisciplinaridade, usando vídeos da TV Escola. Veja alguns exemplos: (1) tire o som de um programa e deixe que os alunos escrevam os diálogos (aproveite para ajudá-los no domínio da Língua Portuguesa, porque eles precisam conhecê-la para ter sucesso nos vestibulares, concursos e empregos); (2) passe o início de um vídeo e peça que os alunos escrevam o final, comparando as diversas produções dos estudantes com a do filme; (3) se você, sua escola ou seus alunos tiver câmera de vídeo, incentive-os a produzirem um roteiro e a realizar o filme, apresentando-o aos colegas (uma produção dessas pode ser objeto de avaliação, em vez de uma prova); (4) se ninguém tiver câmera, peça aos alunos que dramatizem o roteiro preparado, apresentando-o como uma peça de teatro ou novela, incentivando-os na pesquisa, elaboração, iluminação e sonorização da peça; (5) analise com os alunos vídeos do ponto de vista do conteúdo, iluminação, sonorização, figurino, recursos técnicos, roteiro (2)  Veja o Módulo III do curso TV na Escola e os Desafios de Hoje. Se você não fez o curso, pode encontrar o módulo no site http://www.mec.gov.br/seed/tvescola  ; (6) escolha uma notícia importante e acompanhe a apresentação da mesma em três telejornais diferentes, observando formas de abordagem e de aprofundamento em cada um deles.

Invente outras idéias e discuta com seus colegas os resultados alcançados. Você estará preparando a si mesmo(a) e a seus colegas para uma apropriação crítica da TV digital interativa.

Fundamentalmente, reflita com seus colegas sobre a intencionalidade e a profundidade do ato educativo. Não usamos tecnologia por mera brincadeira ou para dizer que somos modernos. Usamos tecnologia porque, com recursos lúdicos e contemporâneos, podemos educar crianças e jovens para viver com responsabilidade, criatividade, espírito crítico, autonomia e liberdade em um mundo tecnologicamente desenvolvido.

Bibliografia:

NEVES, Carmen Moreira de Castro. Critérios de Qualidade para a Educação a Distância. In: Tecnologia Educacional. Rio de Janeiro, v. 26, n°. 141, abr./jun., 1998.

_. Uma nova dinâmica na gestão educacional. Boletim do Salto para o Futuro.  TV na Escola e os desafios de hoje, junho 2002.

1    Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, Mestre em Educação, Diretora do Departamento de Produção e Capacitação em Educação a Distância, da Secretaria de Educação a Distância/MEC.

 

 

SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA
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