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Glauco Gomes de Menezes1 PORTAL DIA-A-DIA EDUCAÇÃO: UMA EXPERIÊNCIA COLABORATIVA NA REDE ESTADUAL DE EDUCAÇÃO BÁSICA DO PARANÁ Introdução Realizar pesquisas, sistematizar informações, definir estratégias didáticas e determinar a forma de abordagem do assunto. Estas são algumas das ações que os educadores desempenham na preparação de suas aulas. Diariamente, centenas de milhares de educadores, de diferentes disciplinas e níveis de ensino, realizam estas etapas para que seus alunos possam receber informações de uma forma pedagogicamente adequada. Porém, devido à falta de um espaço para veiculação e de um ambiente que possibilite o registro destas ações, estas práticas, muitas vezes, não conseguem transpor os muros da escola. Buscando contribuir para a melhoria desta situação, foi desenvolvido o Ambiente Pedagógico Colaborativo (APC). Sua principal finalidade é possibilitar aos educadores o registro de informações relacionadas às suas práticas diárias, sua veiculação na Internet e a disponibilização para que outros professores possam colaborar com informações complementares sobre o conteúdo em questão. É a valorização do capital intelectual dos educadores, a partir da sistematização de seus conhecimentos. É a visão do educador sobre um determinado conteúdo que ele conhece bem. Esta sistematização possibilita aos educadores a construção de objetos de aprendizagem, que segundo Wiley (2000), é “qualquer recurso digital que pode ser reutilizado para assistir a aprendizagem”. O professor deixa de ser um usuário de informações e se torna autor de conteúdos na Internet. Além do Ambiente Pedagógico Colaborativo do Portal Dia-a-dia Educação (www.diaadiaeducacao.pr.gov.br), outras iniciativas relacionadas à tecnologia educacional têm se destacado no Brasil. Entre elas citamos a Rede Internacional Virtual de Educação - RIVED. Este projeto tem por objetivo melhorar o ensino de Ciências e Matemática no Ensino Médio, utilizando-se para isso de recursos tecnológicos de comunicação http://rived.proinfo.mec.gov.br. Outra iniciativa que merece destaque é o Século XX1 http://www.multirio.rj.gov.br/seculo21, da Prefeitura do Rio de Janeiro. 1. O Portal Dia-a-dia Educação Numa época de mudanças estruturais, a universalização dos serviços de informação e de comunicação tem sido o ponto básico da inserção dos indivíduos como cidadãos. Entretanto, “(...) o conceito de universalização deve abranger também o de democratização, pois não se trata tão somente de tornar disponíveis os meios de acesso e de capacitar os indivíduos para tornarem-se usuários dos serviços da Internet. Trata-se, sobretudo, de permitir que as pessoas atuem como provedores ativos dos conteúdos que circulam na rede” (BRASIL, 2000, p. 31). Agilizar os processos de veiculação de conteúdos e disponibilizar um espaço que não impusesse limites ao desenvolvimento intelectual das pessoas. Estes foram fatores decisivos na elaboração de um projeto que apresentasse soluções e ações que favorecessem o uso consciente dos serviços disponíveis na Internet, em favor dos reais interesses e necessidades do usuário final, estruturando uma verdadeira cadeia de produção, recepção e retroalimentação da informação que, embora permeada pelas Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs, tem como base de sustentação o próprio tecido social que a constrói, ou seja, os educadores que compõem a Rede Estadual de Educação Básica do Paraná. A principal função do portal é fomentar a estruturação de uma rede de comunicação efetiva entre todos os envolvidos no processo educativo, propagando dados, informações didático-pedagógicas e experiências eficazes no processo de ensino e aprendizagem, (...) isto significa que a rede permite criar formas mais eficazes de trocas e de coordenação de trabalhos, as quais engendram comunidades novas, paralelas, integradas, mas não necessariamente subordinadas ao seu contexto universitário de origem. Deste ponto de vista, o desenvolvimento de portais de discussão constitui um fenômeno particularmente interessante, e é o símbolo de uma evolução da própria noção de comunidade científica e de pertencimento a uma disciplina (Minuti, 2002, p. 117). Cria-se, então, um espaço na Internet onde os docentes das escolas públicas podem produzir e publicar conteúdos relacionados à sua prática pedagógica. Neste processo, o docente modifica sua relação com o conhecimento, tornando-se agora um autor de conteúdos na rede mundial de computadores. 2. O Ambiente Pedagógico colaborativo - APC Ao apresentar uma proposta de produção de conteúdos na Internet, em que os educadores passam a ser agentes ativos do processo, leva-se em conta uma nova situação histórica (sociedade do conhecimento) que solicita a participação do sujeito na construção e reconstrução do conhecimento, exigindo dele a inserção ativa neste processo, tentando evitar que as novas formas de organização social, trazidas pela tecnologia, funcionem como um novo fator de exclusão social. O APC é um recurso on-line, que busca promover a formalização de conhecimentos dos educadores, para que seus pares possam apropriar-se destes conteúdos, ampliando assim sua relação com o saber. É formado por treze campos, a saber: Paraná: este campo busca explorar as relações do conteúdo abordado pelo(a) educador(a) e suas relações com o estado do Paraná, objetivando um resgate cultural, geográfico e político. Relato – Recurso de Expressão: o relato tem por objetivo disponibilizar uma área onde o(a) educador(a) poderá expressar-se de forma livre, apresentando reflexões, opiniões e questionamentos em relação ao tema. Sugestões de Leitura: este campo possibilita indicações de leituras que propiciem a formação e a atualização sobre o conteúdo abordado. Imagens: há um banco de imagens, que possibilita ao autor do APC selecionar imagens que representem fatos, características e descrições do assunto abordado. Sítios: a Internet possui diversos endereços (URL) com informações relativas aos conteúdos abordados pelos(as) educadores(as). Este recurso prevê um comentário do autor sobre as relações existentes no sítio da Internet com o conteúdo abordado. Sons e vídeos: que se refere à indicação de áudios e/ou vídeos, buscando apresentar relações com o conteúdo abordado. A música, por exemplo, pode mobilizar a imaginação e os sentimentos ao remeter o ouvinte à construção de cenários e de significações subjetivas, mediando emoção e razão. Filmes e discursos podem ser utilizados como registro documental ou ilustração sobre uma época, personalidade ou acontecimento. Notícias: prevêem a disponibilização de fatos veiculados pela mídia impressa, onde os educadores poderão articular o conteúdo apresentado com fatos relacionados ao nosso cotidiano. Curiosidades: são informações relacionadas ao conteúdo, que buscam complementá-lo e enriquecê-lo. Investigando: tem como finalidade apresentar propostas para o desenvolvimento de atitudes que valorizem a problematização e a pesquisa, estimulando a interpretação, a observação, a investigação e a capacidade de análise e síntese. Perspectiva interdisciplinar: busca estimular a compreensão das relações existentes entre as disciplinas, não de maneira justaposta, mas articulada ao conteúdo apresentado. Propondo atividades: objetiva disponibilizar propostas de ações a serem desenvolvidas pelos alunos, estimulando sua interação com o conteúdo, levando-os a raciocinar e a desenvolver sua criatividade e seu espírito crítico. Contextualizando: articula o conteúdo abordado com os temas transversais, relacionando-o à realidade histórico-social. Fórum de discussões: é um espaço virtual, onde os(as) educadores(as) poderão apresentar afirmações, negações ou questionamentos para que seus pares possam aprofundar as discussões, estimulando assim seu espírito crítico e reflexivo. A criação de objetos de aprendizagem a partir do APC exige o investimento no desenvolvimento de competências suficientemente amplas e capazes de servir de base para que os indivíduos tomem decisões fundamentadas no conhecimento e na operação dos novos meios, como ferramentas em seu trabalho diário, num processo dinâmico e contínuo. Busca-se igualmente capacitar seus usuários a lidar positivamente com a constante evolução da base tecnológica, aprendendo a aprender com os meios. O modelo colaborativo de aprendizagem (CSCL) inserido no Ambiente Pedagógico Colaborativo foi concebido dentro desta perspectiva, de estímulo à socialização de informações, identificando pares com interesses comuns, estimulando a prática de criação de equipes e fomentando a criação de comunidades virtuais de aprendizagem. No CSCL, um grupo estruturado de pessoas estuda em conjunto para a execução de uma atividade em comum, superando a distância espaço-temporal através da mediação do computador. Para melhor compreender os fundamentos desta concepção é relevante apontar que muitas teorias colaboraram para o desenvolvimento do CSCL, entre as quais: a teoria sociocultural, o construtivismo, a aprendizagem auto-regulada, a cognição situada, o aprendizado cognitivo, o aprendizado baseado em problema e a cognição distribuída (HSIAO, 2001, p.2). O Ambiente Pedagógico Colaborativo é um sistema de inserção e de acesso de dados, onde o docente colabora com informações referentes às diferentes disciplinas da Educação Básica, possibilitando assim, a aquisição de novos conhecimentos para seus pares e para si mesmo. Ao elaborar este material, enriquece a sua prática, processando seus conhecimentos e certificando-os com base nas diretrizes educacionais propostas pela SEED/PR. Segundo Gramsci (1999, p. 125) “(...) uma das características dos intelectuais como categoria social cristalizada [...] é, precisamente, a de relacionarem-se na esfera ideológica como uma categoria intelectual precedente, através de uma idêntica nomenclatura de conceitos. Todo novo organismo histórico (tipo de sociedade) cria uma nova superestrutura, cujos representantes especializados e porta-vozes (os intelectuais) só podem ser concebidos também como ‘novos intelectuais’, surgidos da nova situação, e não como a continuação da intelectualidade precedente”. Sendo assim, este modelo permite atender à necessidade de se manter um amplo processo de discussão na rede de ensino estadual sobre as diferentes abordagens dos conteúdos curriculares, ajustados à nova realidade educacional, como forma de aumentar a eficácia do processo de ensino-aprendizagem. O APC, além de preconizar a troca de experiências, foi concebido dentro de uma perspectiva dialética, visando sempre ao desenvolvimento potencial de seus usuários e colaboradores. Um de seus principais objetivos é estimular a formação de equipes e a criação de comunidades virtuais de aprendizagem. Equipes são aqui entendidas como pequenos grupos de pessoas que realizam atividades conjuntas, e as comunidades, como grandes grupos de pessoas que possuem características e objetivos comuns (Férran-Urdaneta, 1999, p. 128). Este modelo não só contempla questões didático-metodológicas, como também estrutura, por meio do conhecimento, uma dimensão coletiva através da formação de equipes de trabalho e de comunidades virtuais de aprendizagem. É, basicamente, a tecnologia a serviço de uma reconstrução da identidade profissional do professorado paranaense, que passa a questionar-se sobre quais saberes são portadores e quais ações autônomas são necessárias para a reconstrução de seus conhecimentos dentro das exigências educacionais da sociedade da informação, que tem como princípios metodológicos norteadores “integrar tecnologias, metodologias, atividades. Integrar texto escrito, comunicação oral, escrita, hipertextual, multimídica. Aproximar as mídias, as atividades, possibilitando que transitem facilmente de um meio para o outro, de um formato para o outro” (Moran, 2000, p. 31). O APC não possui um caráter diretivo, respeitando a autonomia intelectual dos educadores. Seu modelo tem uma função mais instigadora e flexível do que apresentação de fórmulas didáticas. Assim, não pode ser classificado como um plano de aula, pois considera-se neste modelo que “(...) a elaboração e a transmissão de métodos de pensamento eficazes e fecundos nada têm de comum com a circulação das ‘idéias’ tal como é geralmente pensada: se é permitida esta analogia, diria que os trabalhos científicos são parecidos com uma música que fosse feita não para ser mais ou menos passivamente escutada, ou mesmo executada, mas sim para fornecer princípios de composição” (Bourdieu, 1998, p. 63). O APC possui mecanismos que objetivam estimular mudanças de atitude, no tocante à produção e ao compartilhamento de recursos de ensino, tais como: recursos de expressão (textos e relatos de autoria do professor); informativos e formativos (artigos e textos de fundamentação teórica); de interação (fóruns de discussão e dispositivos de colaboração); recursos didáticos (sites, imagens, sons, indicação de vídeos, softwares de simulação, tradutores, dicionários) e metodológicos (propostas de atividades para a iniciação à investigação científica, integração de disciplinas, encaminhamentos para sala de aula e possíveis relações do assunto com os Temas Sociais Contemporâneos). Depois de elaborados, os conteúdos são veiculados no hipermeio. Sua veiculação dá a este conteúdo um caráter dinâmico, pois pode tornar-se um objeto que instigue outros docentes a complementá-lo (colaborações parciais), ou a produzir novos APCs. Considerações finais Acredita-se que, com a implantação deste novo modelo, que envolve pessoas geograficamente dispersas, unindo-as virtualmente em uma grande rede colaborativa, possa haver uma contribuição efetiva para a elevação dos índices educacionais na Rede de Educação Básica do Estado do Paraná. Sendo assim, o APC, principal ferramenta do Portal Dia-a-dia Educação, tem também uma função endógena, muito peculiar, a de permitir a educação continuada do professorado num processo colaborativo. O processo colaborativo é considerado inovador, pois supõe, cada vez mais, a produção e a aplicação de conhecimentos a partir de aprendizados interativos e dinâmicos, da formação de equipes e comunidades em alianças estratégicas e da gestão de informações e conhecimentos. É a valorização do capital intelectual existente nas escolas públicas do Paraná, reconhecendo as pessoas que nelas trabalham e apostando na sua capacidade de inovação. Esta experiência provou que há colaboradores lecionando nas escolas públicas da Rede Estadual de Educação Básica do Estado do Paraná, que são detentores de conhecimentos aprofundados de suas disciplinas, que com o auxílio das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, e com o suporte da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, podem tornar-se protagonistas de seu próprio processo de aprendizagem através da Internet. Referências bibliográficas ALVAREZ, Amelia; RÍO, Pablo del. Educação e desenvolvimento: a teoria de Vygotsky e a zona de desenvolvimento próximo. In: COLL, César; PALACIOS, Jesús; MARCHESI, Álvaro. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. V.2 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico.Tradução: Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p.63. BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Sociedade da informação no Brasil: livro verde. Brasília, 2000. BROWN, John Seely; COLLINS, Allan; DUGUID, Paul. Situated cognition and the culture of learning. Disponível em <http://www.ilt.columbia.edu/ilt/papers/JohnBrown.html> Acesso em: 20 jul. 2001. Communautés virtuelles et enseignement de l’histoire. In. MINUTI, Rolando. Internet et le métier d’historien. Paris: Puf, 2002. p. 117. FÉRRAN-URDANETA, Carlos. Teams or communities? Organizational structures for knowledge management. In: SIGCPR’99, 1999, New Orleans: Louisiana. Proceedings of the ACM Computer Personnel Research 1999 conference. New Orleans: Louisiana, 1999. p. 128-134. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Tradução: Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. V. 1 HSIAO, Jy Wana Daphne Lin. CSCL theories. Disponível em: http://www.edb.utexas.edu/csclstudent/Dhsiao/theories.html Acesso em: 20 mar. 2004. MORAN, José Manuel. Ensino e aprendizagem inovadores com tecnologias audiovisuais e telemáticas. In: MORAN, José Manuel; BEHRENS, Marilda Aparecida; MASETTO, Marcos T. Novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2000.
1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná; Mestre em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná; Graduado em Pedagogia; Analista de Sistemas; Coordenador Geral do Portal Dia-a-dia Educação da Secretaria de Estado da Educação do Paraná; Coordenador Pedagógico do Centro de Excelência em Tecnologia Educacional do Paraná. 2 Especialista em Web Design pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná; Graduada em Jornalismo - UniCEUB; Coordenadora de Mídia e Comunicação do Portal Dia-a-Dia Educação da Secretaria de Estado da Educação do Paraná; Coordenadora de Material Didático do Centro de Excelência em Tecnologia Educacional do Paraná. | ||
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