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PEDAGOGIA
DE PROJETOS E INTEGRAÇÃO DE MÍDIA
PGM
5 - PRÁTICA
E FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA INTEGRAÇÃO DE MÍDIAS Maria
Elizabeth Bianconcini de Almeida 1 Prática pedagógica e formação de professores com projetos: articulação entre conhecimentos, tecnologias e mídias Para compreender as contribuições ao ensino e à aprendizagem propiciadas pela prática pedagógica com projetos, com o uso de tecnologias, é importante considerar três aspectos fundamentais. Um
deles se refere à explicitação daquilo que se deseja atingir com o
projeto e às ações que se pretende realizar – o registro de intenções,
processos em realização e produções. Outro aspecto diz respeito à
integração das tecnologias e mídias, explorando suas características
constitutivas, de modo a incorporá-las ao desenvolvimento de ações para
agregar efetivos avanços. O terceiro aspecto trata dos conceitos
relacionados com distintas áreas de conhecimento, que são mobilizados no
projeto para produzir novos conhecimentos relacionados com a problemática
em estudo. Este texto pretende explorar esses três aspectos, explicitando
a importância da formação do professor para que ele tenha condições
de desenvolver práticas pedagógicas com projetos que favoreçam a
recontextualização do conhecimento na escola e na vida do aluno, a produção
colaborativa de representações que engajam os alunos como aprendizes,
construtores de significados. Para enfatizar essas idéias são comentados
alguns exemplos de práticas de sala de aula em que tecnologias foram
articuladas a projetos para propiciar aos alunos a aprendizagem
significativa, por meio do desenvolvimento de produções com o uso de
diferentes mídias. Mas, afinal, o que é projeto? A
idéia de projeto faz parte da essência do ser humano consciente de sua
condição de incompletude, em busca incessante de transformar-se para
atingir algo desejável e encontrar respostas às suas questões. Vários
pensadores se dedicaram a aprofundar o conceito de projeto como característica
inerente ao ser humano, que o distingue dos demais seres vivos. Heidegger
(1999) coloca o homem em inter-relação com o mundo no qual ele projeta
suas próprias possibilidades, e ao mesmo tempo, participa de sua produção. Na
mesma direção de Heidegger, Sartre (apud Cobra, 2001) acentua a
liberdade do homem para construir a própria essência através de suas opções,
cuja intencionalidade leva à produção de projetos. O homem não é
concebido a priori ; ele é livre para escolher conscientemente
seus objetivos, valores, atitudes e projetos de vida, mas essa escolha
transcende o indivíduo e engloba toda a humanidade, adquirindo valor
universal. Boutinet (apud Thurler, 2001, p. 118), acrescenta que a idéia
de projeto é inseparável da visão e do sentido da ação e “supõe
que ninguém aja sem projeto e ninguém deixa de ter projeto”. O
homem se constitui em sua humanidade à medida que desenvolve sua
capacidade de fazer escolhas e lançar-se ao mundo, transformando-se e
transformando-o, em busca de desenvolver projetos para atingir metas e
satisfazer desejos pessoais e coletivos a partir de valores históricos,
culturalmente situados e socialmente acordados (Machado, 2000, p. 2). Projeto
é uma construção própria do ser humano, que se concretiza a partir de
uma intencionalidade representada por um conjunto de ações que ele antevê
como necessárias para executar, a fim de transformar uma situação
problemática em uma situação desejada. A realização das atividades
produz um movimento no sentido de buscar atingir, no futuro, uma nova
situação que responda às suas indagações ou avance no sentido de
melhor compreendê-las. Nesse processo de realização das atividades,
acontecem imprevistos e mudanças se fazem necessárias, evidenciando que
o projeto traz em seu bojo as idéias de previsão de futuro, abertura
para mudanças, autonomia na tomada de decisões e flexibilidade. O
projeto se distingue de conjecturas, porque está em constante
comprometimento com ações explicitadas intencionalmente em um plano
(esboço ou design) caracterizado pela plasticidade, flexibilidade
e abertura ao imprevisível. É carregado de incertezas, ambigüidades,
soluções provisórias, variáveis e conteúdos não identificáveis a
priori e emergentes no processo, sendo continuamente revisto,
refletido e reelaborado durante sua realização. O
projeto é desenvolvido pelas pessoas que pensam e atuam em sua realização.
Os autores são aqueles que participam em todo o desenvolvimento do
projeto, concebem e discutem as problemáticas, descrevem e registram um
plano para investigá-las e produzir resultados, desenvolvem as ações e
avaliam continuamente se os resultados que vão sendo obtidos são aceitáveis
em termos de satisfazer as intenções desejadas, responder às perguntas
iniciais ou avançar em sua compreensão e até alterar as perguntas
iniciais ou levantar novas perguntas. Na
constituição de um projeto o fundamental é “ter
coragem de romper com as limitações do cotidiano, muitas delas
auto-impostas”
(Almeida & Fonseca Júnior, 2000, p. 23 e 22) e “delinear
um percurso possível que pode levar a outros, não imaginados a priori
”
(Freire & Prado, 1999, p. 113). Portanto, “supõe
rupturas com o presente e promessas para o futuro”
(Gadotti & Romão, 1997, p. 37). O que vem a ser essa tal de tecnologia? A
preocupação atual com a invasão de privacidade provocada pela convivência
cotidiana com as tecnologias de informação e comunicação leva a
interpretações equivocadas sobre o conceito de tecnologia. O imaginário
das pessoas cria situações em que artefatos tecnológicos adquirem vida
própria com elevado nível de inteligência e tornam-se salvadores do
mundo ou ameaçam aniquilar toda espécie de vida. No
entanto, em nosso dia-a-dia empregamos processos e usamos artefatos de
forma tão natural que nem nos damos conta de que constituem distintas
tecnologias há muito presentes em nossa vida, uma vez que já estão
incorporados aos nossos hábitos, como é o caso dos processos empregados
para cuidar da higiene e limpeza pessoal, alimentar-se, falar ao telefone,
cozer etc. Outras tecnologias com as quais convivemos também não se
fazem notar embora se caracterizem como artefatos tais como canetas, lápis,
cadernos, talheres etc. Outras servem de prótese para estender ou
aprimorar nossos sentidos como os óculos, aparelhos de audição,
instrumentos de medida e muitos outros. Evidencia-se
que tecnologia é um conceito com múltiplos significados que variam
conforme o contexto (Reis, 1995), podendo ser vista como: artefato,
cultura, atividade com determinado objetivo, processo de criação,
conhecimento sobre uma técnica e seus respectivos processos etc. Em 1985,
Kline (apud Reis, 1995, p. 48) propôs uma definição de tecnologia como
o estudo do emprego de ferramentas, aparelhos, máquinas, dispositivos,
materiais, objetivando uma ação deliberada e a análise de seus efeitos,
envolvendo o uso de uma ou mais técnicas para atingir determinado
resultado, o que inclui as crenças e os valores subjacentes às ações,
estando, portanto, relacionada com o desenvolvimento da humanidade. Complementando
essas idéias, Lévy (1997b) salienta que a técnica faz parte do sistema
sócio-técnico global, sendo planejada e construída pelo homem que,
ao utilizá-la, apropria-se dela, reinterpretando-a e reconstruindo-a.
Assim, as tecnologias são produto de uma sociedade e de uma cultura, não
existindo relação de causa e efeito entre tecnologia, cultura e
sociedade e sim um movimento cíclico de retroação (Morin, 1996). Atualmente,
com a intensa comunicação entre as pessoas, é comum a transferência
das técnicas de uma cultura para outra, mas é no interior de cada
cultura que as técnicas adquirem novos significados e valores. No
entanto, as tecnologias e seus produtos não são bons nem maus em si
mesmos, os problemas não estão na televisão, no computador, na
Internet, ou em quaisquer outras mídias e sim nos processos humanos, que
podem empregá-los para a emancipação humana ou para a dominação. É possível integrar projetos e tecnologias? A
utilização de tecnologias na escola e na sala de aula impulsiona a
abertura desses espaços ao mundo e ao contexto, permite articular
as situações global e local, sem contudo abandonar o universo de
conhecimentos acumulados ao longo do desenvolvimento da humanidade.
Tecnologias e conhecimentos se integram para produzir novos conhecimentos
que permitam compreender as problemáticas atuais e desenvolver projetos,
em busca de alternativas para a transformação do cotidiano e a construção
da cidadania. Ao
desenvolver projetos em sala de aula, é importante levantar problemáticas
relacionadas com a realidade do aluno, cujas questões e temáticas em
estudo partem do conhecimento que ele traz de seu contexto e buscam
desenvolver investigações para construir um conhecimento científico que
ajude este aluno a compreender o mundo e a conviver criticamente na
sociedade. Assim, a partir da busca e organização de informações
oriundas de distintas fontes e tecnologias, valoriza-se a articulação
entre novas formas de representação de conhecimentos através das mídias
e respectivas formas de linguagem que mobilizam pensamentos criativos,
sentimentos e representações, contribuindo para a comunicação, a
interação entre pessoas e objetos de conhecimento, a aprendizagem e o
desenvolvimento de produções. Compreender
as diferentes formas de representação e comunicação propiciadas pelas
tecnologias disponíveis na escola, bem como criar dinâmicas que permitam
estabelecer o diálogo entre as formas de linguagem das mídias, são
desafios para a educação atual, que requerem o desenvolvimento de
programas de formação continuada de professores. A mídia audiovisual traz contribuições ao ensino e à aprendizagem? Mesmo
que seus recursos não estejam fisicamente instalados nos espaços
escolares, a mídia audiovisual invade a sala de aula. A linguagem
produzida na integração entre imagens, movimentos e sons atrai e toma
conta das gerações mais jovens, cuja comunicação resulta do encontro
entre palavras, gestos e movimentos, distanciando-se do gênero do livro
didático, da linearidade das atividades da sala de aula e da rotina
escolar. Criar espaços para a identificação e o diálogo entre essas
formas de linguagem e permitir que os alunos se expressem de diferentes
maneiras são ações que favorecem o desenvolvimento da consciência crítica
sobre a influência da mídia e respectivas estratégias direcionadas a
determinados grupos sociais, num jogo complexo em que se encontram implícitos,
sutilmente, os significados que se pretendem impor a esse público. A
televisão e o vídeo são ótimos recursos para mobilizar os alunos em
torno de problemáticas, quando se intenta despertar-lhes o interesse para
iniciar estudos sobre determinados temas ou trazer novas perspectivas para
investigações em andamento. Assim, pode-se buscar temas que se articulam
com os conceitos envolvidos nos projetos em desenvolvimento, selecionar o
que for significativo para esses estudos, aprofundar a compreensão sobre
os mesmos, estabelecer articulações com informações provenientes de
outras mídias, desenvolver representações diversas que entrelaçam
forma e conteúdo nos significados que os alunos atribuem aos temas. Um
exemplo de atividade construtiva foi realizado por alunos de alfabetização,
com idade entre 6 e 7 anos, da Casa Escola do Rio Grande do Norte.
Reportagem do jornal A Tribuna, de Natal (29.10.2002)2,
comenta “Alunos
decifram a esfinge da televisão brasileira”.
Após terem participado de uma filmagem na escola, os alunos levantaram
questões sobre a forma de transmissão, a programação da televisão
como telejornais, desenhos, propagandas e até mesmo a atitude dos pais
diante da televisão. A pesquisa levou-os a compreender diferentes
aspectos relacionados com essa mídia e a desenvolver o senso crítico
diante da programação dos canais televisivos. Os alunos visitaram a TV
Universitária local, onde observaram de perto a produção de programas e
puderam debater sobre como produzir programas educativos. O projeto foi
concluído com uma exposição dos trabalhos produzidos a respeito de suas
descobertas. No
projeto descrito, poder-se-ia dar aos alunos a oportunidade de criar
roteiros e tomar a filmadora nas mãos, a fim de produzir seus próprios vídeos,
de modo a que pusessem representar o significado de suas análises na mídia
audiovisual. Além disso, a articulação entre mídia audiovisual e
impressa poderia expandir-se para outras mídias, como o computador, para
aprofundar as pesquisas e elaborar novas produções, trocar idéias e
experiências com alunos de outras escolas e socializar suas descobertas
em sites. No
entanto, para que o professor possa expandir o seu olhar para outros
horizontes, é importante que ele esteja engajado em programas de formação
continuada, cujo grupo em formação reflete em conjunto sobre as práticas
em realização e tem chances de encontrar diferentes alternativas para
avançar nesse trabalho de integração entre mídias e conhecimento,
propiciando as interconexões entre aprendizagem e construção de
conhecimento, cognição e contexto, bem como o redimensionamento do papel
da escola como uma organização produtora de conhecimento. O que o uso de textos e hipertextos traz de inovador para a aprendizagem? O
advento das tecnologias de informação e comunicação – TIC,
resultante da junção entre informática e telecomunicações, gerou
novos desafios e oportunidades para a incorporação de tecnologias na
escola em relação a diferentes formas de representação e comunicação
de idéias. A característica de propiciar a interação e a construção
colaborativa de conhecimento da tecnologia
de informação e comunicação evidenciou o potencial de incitar o
desenvolvimento de habilidades de escrever, ler, interpretar textos e
hipertextos. Com
o uso das TIC “o
ato de ler se transforma historicamente”
(Kenski, 2001, p. 132). Não se
trata da mesma leitura realizada no espaço linear do material impresso. A
leitura de um texto não-linear na tela do computador está baseada em
indexações, conexões entre idéias e conceitos articulados por meio de links
(nós e ligações), que conectam informações representadas sob
diferentes formas, tais como palavras, páginas, imagens, animações, gráficos,
sons, clipes de vídeo, etc. Desta forma, ao clicar sobre uma palavra,
imagem ou frase definida como um nó de um hipertexto, encontra-se uma
nova situação, evento ou outros textos relacionados. O
uso de hipertexto rompe com as seqüências estáticas e lineares de
caminho único, com início, meio e fim fixados previamente. O autor
disponibiliza um leque de possibilidades informacionais que permite ao
leitor dar ao hipertexto um movimento singular, ao interligar as informações
segundo seus interesses e necessidades momentâneos, navegando e
construindo suas próprias seqüências e rotas. Ao saltar entre as
informações e estabelecer suas próprias ligações e associações, o
leitor interage com o texto assumindo um papel ativo e tornando-se
co-autor do hipertexto. Para Soares (2001), a leitura do hipertexto na
tela é feita em camadas, iniciando
e terminando no ponto que o leitor decide, o qual pode ter liberdade e
autonomia para intervir no texto e reconstruí-lo. Assim, a comunicação
pela tela está criando não só novos gêneros da escrita, mas também
está inovando o sistema da escrita (ib, 2001: 39). Leitura
e escrita se mesclam na criação de um texto digital. Ler e escrever
significa interagir para escolher entre um leque de ligações
preestabelecidas pelo criador do hipertexto ou para estabelecer novas ligações
não previstas pelo autor (Lévy, 1999), criar percursos próprios, deixar
marcas, reconfigurar espaços e criar narrativas pessoais. Descrever
idéias com o uso da mídias digitais cria um movimento entre o escritor e
o texto que os aproxima, criando vínculos que seduzem o leitor para ler,
refletir, reescrever, atribuir significados, trocar informações e experiências,
divulgar fatos do cotidiano, produzir histórias, criar hipertextos e
desenvolver projetos. Outros
recursos tecnológicos também permitem o registro de idéias e de visões
de mundo por meio da escrita. Porém, até o presente, apenas a tecnologia
de informação e comunicação tem como característica o fazer, rever e
refazer contínuo, transformando o erro em algo que pode ser revisto e
reformulado (depurado) instantaneamente para produzir novos saberes. É
importante integrar as potencialidades das tecnologias de informação e
comunicação nas atividades pedagógicas, de modo a favorecer a
representação textual e hipertextual do pensamento do aluno, a seleção,
a articulação e a troca de informações, bem como o registro sistemático
de processos e respectivas produções, para que possa recuperá-las,
refletir sobre elas, tomar decisões, efetuar as mudanças que se façam
necessárias, estabelecer novas articulações com conhecimentos e
desenvolver a espiral da aprendizagem. Nessa
aventura, o professor também é desafiado a assumir uma postura de
aprendiz ativo, crítico e criativo, articulador do ensino com a pesquisa,
constante investigador sobre o aluno, sobre seu nível de desenvolvimento
cognitivo, social e afetivo, sobre sua forma de linguagem, expectativas e
necessidades, sobre seu estilo de escrita, sobre seu contexto e sua
cultura. O professor é um artista que busca projetar as bases de um currículo
intrinsecamente motivador para o aluno tornar-se leitor e escritor. Não
é o professor quem planeja para os alunos executarem, ambos são
parceiros e sujeitos do processo de conhecimento, cada um atuando segundo
o seu papel e nível de desenvolvimento. Para Freire & Shor (1986), o
educador faz com os seus alunos e não faz para os alunos. Assim,
novas e diferentes maneiras de produção de saberes e descoberta de
conhecimentos, bem como diversas representações que entrelaçam forma e
conteúdo nos significados que os autores atribuem aos fatos, fenômenos
ou problemas em estudo, são propiciadas pelas TIC e representações em
textos, hipertextos e sites (homepages), unindo distintas mídias
e linguagens. Um
exemplo do uso das TIC em projetos vem acontecendo na Escola Estadual Antônio
Canela, situada na periferia da cidade de Montes Claros, MG, na qual
diretora, supervisores, funcionários, professores, alunos e comunidade
compartilham problemas e buscam alternativas para tornar viável a integração
das TIC aos espaços da escola. Os projetos se desenvolvem em sala de aula
a partir das problemáticas locais ou temas de interesse dos alunos. A
escola participa do projeto RiverWalk-Brasil3
e utiliza os espaços virtuais da LtNet4
como ambiente virtual de aprendizagem colaborativa e desenvolvimento
profissional. A professora facilitadora do laboratório de informática,
Marly Almeida, orienta continuamente os alunos monitores para que dêem
apoio às atividades dos professores com o computador, ajudem os alunos a
criar seu hipertextos e homepages e são parceiros dos professores
de outra escola próxima que ainda não conta com monitores. A
parceria da escola com a comunidade se intensificou com o projeto de
Inclusão Digital, no qual os alunos monitores são orientadores de seus
pais nos primeiros contatos com as TIC, cujo uso está voltado ao trabalho
com as problemáticas do cotidiano, em consonância com as idéias de
Paulo Freire sobre alfabetização transportadas para o mundo digital,
cuja problemática faz emergir novos temas, tais como: o domínio do
controle remoto da TV, o acesso aos caixas eletrônicos de bancos para
recebimento de proventos, etc. Marly Almeida aponta como resultados do
projeto a participação mais efetiva dos pais na escola, sua colaboração
em diversas atividades e mudanças nas relações entre pais e filhos: “Estes
pais agora fazem parte do cenário escolar junto aos filhos e é comum
serem vistos junto aos estudantes nas dependências da escola, como se
fossem um deles.” Assim
como a diretora procura estar junto com os demais educadores e alunos da
escola, também as professoras multiplicadoras do Núcleo de Tecnologia
Educacional - NTE de Montes Claros são parceiras, incentivadoras,
provocadoras e promotoras de atividades que integram o uso das TIC com os
vídeos da TV Escola, criando um movimento promissor que toma conta das
escolas da região Norte de Minas Gerais. A formação de professores a
distância foi a estratégia encontrada para preparar professores de
sessenta e três escolas da região, situadas tanto na área urbana como
rural, localizadas em regiões próximas ou muito distantes da cidade de
Montes Claros. Alguns
fatores são comuns a todas essas escolas atendidas pelo NTE de Montes
Claros: a formação dos professores se realiza sob a responsabilidade
dessas professoras multiplicadoras; os diretores se empenham para superar
os obstáculos e prover condições para a realização de projetos com o
uso das TIC; existem um ou dois professores facilitadores de informática,
articuladores das atividades de uso das TIC, os quais apoiam o trabalho
dos demais professores com seus alunos no laboratório de informática e
procuram identificar, no cotidiano das escolas, as temáticas que possam
despertar o interesse de alunos e conquistar os professores para o
desenvolvimento de projetos. Evidencia-se
que os avanços nessas práticas são influenciados pela participação
dos profissionais em
programas de formação continuada voltados à integração entre
tecnologias, principalmente computador, Internet, televisão e vídeo na
prática pedagógica. É fato que essa incorporação encontra-se em
processo, as experiências em desenvolvimento se relacionam com aspectos
intuitivos e a aprendizagem tende ao nível empírico, mas se observa,
sobretudo, que os professores são encorajados pelos multiplicadores a
desenvolver estratégias adequadas. Assim, o multiplicador desempenha
papel fundamental para orientar o professor e
este é essencial para a participação e o desenvolvimento do
aluno em atividades destinadas a propiciar o uso e a produção de
conhecimento significativo. Multiplicadores, professores, alunos e
comunidade podem constituir uma comunidade de aprendizagem e conhecimento,
em formação ao longo da vida. E como as tecnologias se integram à prática pedagógica? O
professor que atua nessa perspectiva tem uma intencionalidade enquanto
responsável pela aprendizagem de seus alunos e esta constitui o seu
projeto de atuação, elaborado com vistas a respeitar os diferentes
estilos e ritmos de trabalho dos alunos, incentivar o trabalho
colaborativo em sala de aula no que se refere ao planejamento, escolha do
tema e respectiva problemática a ser investigada e registrada em termos
do processo e respectivas produções, orientar o emprego de distintas
tecnologias incorporadas aos projetos dos alunos, de modo a trazer
significativas contribuições à aprendizagem. Essa
prática pedagógica é uma forma de conceber educação que envolve o
aluno, o professor, as tecnologias disponíveis, a escola e seu entorno e
todas as interações que se estabelecem nesse ambiente, denominado
ambiente de aprendizagem. Tudo isso implica um processo de investigação,
representação, reflexão, descoberta e construção do conhecimento, no
qual as mídias a utilizar são selecionadas segundo os objetivos da
atividade. No entanto, caso o professor não conheça as características,
potencialidades e limitações das tecnologias e mídias, ele poderá
desperdiçar a oportunidade de favorecer um desenvolvimento mais poderoso
do aluno. Isto porque para questionar o aluno, desafiá-lo e instigá-lo a
buscar construir e reconstruir conhecimento com o uso articulado de
tecnologias, o professor precisa saber quais mídias são tratadas por
essas tecnologias e o que elas oferecem em termos de suas principais
ferramentas, funções e estruturas. Evidencia-se,
portanto, a importância da atuação do professor e respectivas competências
em relação à mobilização e emprego das mídias, subsidiado por
teorias educacionais que lhe permitam identificar em que atividades essas
mídias têm maior potencial e são mais adequadas. Para que o professor
possa desenvolver tais competências, é preciso que ele esteja engajado
em programas de formação, participando de comunidades de aprendizagem e
produção de conhecimento. Que formação de professores é essa? O
triplo domínio em termos midiáticos com as respectivas linguagens, teórico-educacionais
e pedagógicos, acrescido da gestão das atividades em realização e
respectivos recursos empregados, é adquirido por meio de formação
continuada, na qual o professor tem a oportunidade de explorar as
tecnologias, analisar suas potencialidades, estabelecer conexões entre
essas tecnologias em atividades nas quais ele atua como formador, refletir
com o grupo em formação sobre as possibilidades das atividades
realizadas com aprendizes e buscar teorias que favoreçam a compreensão
dessa nova prática pedagógica. No
processo de formação, o educador tem a oportunidade de vivenciar
distintos papéis como o de aprendiz, o de observador da atuação de
outro educador, o papel de gestor de atividades desenvolvidas em grupo com
seus colegas em formação e o papel de mediador junto com outros
aprendizes. A reflexão sobre essas vivências incita a compreensão sobre
o seu papel no desenvolvimento de projetos que incorporam distintas
tecnologias e mídias para a produção de conhecimentos. A
concepção dessa formação é a de continuidade e serviço, de processo,
não buscando um produto pronto, mas sim a criação de um movimento cuja
dinâmica se estabelece na reflexão na ação e na reflexão sobre a ação
(Shön, 1992), ação esta experienciada durante a formação,
recontextualizada na prática do formando e refletida pelo grupo em formação,
realimentando a formação, a prática de formandos e formadores e as
teorias que a fundamentam. Não se trata de uma formação voltada para
atuação no futuro, mas sim de uma formação direcionada pelo presente,
tendo como pano de fundo a ação imediata do educador. Procura-se
estabelecer uma congruência entre o processo vivido pelo educador
formando e sua prática profissional. A
partir da convivência com os desafios e outros fatores que interferiam no
trabalho educativo, na busca conjunta de alternativas para sobrepujar as
dificuldades, no compartilhamento de conquistas e fracassos, nas reflexões
na e sobre a própria ação, o educador tem a possibilidade de
compreender o quê, como, por quê e para quê (Imbernón, 1998) empregar
o computador em sua ação. Cabe
aos formadores de educadores proporcionar-lhes essas vivências;
acompanhar a atuação do educador em formação com outros aprendizes;
criar situações para a reflexão coletiva sobre: novas descobertas, o
processo em desenvolvimento, as produções realizadas, as dificuldades
enfrentadas e as estratégias que permitam ultrapassá-las; enfim, depurar
continuamente o andamento do trabalho junto ao grupo em formação. Essa
formação centrada no contexto de atuação do professor e na realidade
da escola se assemelha a uma dança que articula distintos passos
(Valente, 2003), porém, para proporcionar essa dança, os instrumentos
precisam estar em harmonia, combinando ritmos e articulando os momentos em
que tocam em conjunto ou em que alguns silenciam e outros se sobressaem
para que exista uma produção compartilhada. Exemplos
de projetos que integram distintas tecnologias, com o objetivo de
propiciar aos alunos a aprendizagem sobre imagem fotográfica e vídeo,
por meio da produções desenvolvidas pelos alunos, são descritos a
seguir: u O Projeto Foto Escola, realizado em uma escola pública de um pequeno bairro de município próximo à cidade de São Paulo, foi organizado pelo professor de Educação Artística, o qual apresenta atitudes de tendência inovadora e arrojada, evidenciando uma prática pedagógica que se aproxima da ótica de projetos com integração entre distintas tecnologias: máquina fotográfica, computador (software Como as coisas funcionam, processador de textos Word e editor de desenhos Paint, ambos do Pacote Office da Microsoft) e jornal. O professor responsável lembra que tem o projeto registrado, mas a cada ano este precisa ser adaptado ao nível da turma e somente é desenvolvido caso haja uma negociação com os alunos e escolha do tema de trabalho por meio de votação. No início do ano letivo, o professor faz em cada classe uma votação sobre os conteúdos que os alunos gostariam de aprender e o trabalho se desenvolve a partir do interesse demonstrado. O projeto partiu de uma curiosidade ou uma questão que o professor lançou para a turma: vamos aprender fotografia? Os alunos gostaram da idéia, o professor os incitou a pesquisar sobre o tema, até que levantaram questões relacionadas ao funcionamento da máquina fotográfica. Num primeiro momento o professor “monitorou” a utilização do software “Como as Coisas Funcionam”, orientando os alunos para analisar o funcionamento da máquina fotográfica e para chegarem ao tema do estudo, depois eles puderam navegar livremente. Em seguida, o professor acompanhou os alunos em expedição na natureza para colher fotos ao ar livre. Caminharam pelo menos duas horas até atingir o alto de uma pedra onde há uma gruta; cada grupo de trabalho escolheu o que era mais apropriado para tirar as fotos em 1o, 2o e 3o plano. Após a revelação, o resultado foi analisado pelos grupos, conforme critérios previamente estabelecidos e os autores da melhor foto ganharam um filme para máquina fotográfica e a respectiva revelação. Em seguida, os alunos voltaram ao computador para reelaborar os cenários das fotos e criar textos explicativos sobre produção de fotografia. Os alunos demonstraram satisfação pelas atividades, admiração e estima pelo professor. Manifestaram fascínio pelo trabalho no computador, interesse pelo estudo de conteúdos específicos com o uso de tecnologias e facilidade de aprender com os recursos de animação oferecidos pelo software. Entrevistei
os alunos da 8a
série que trabalharam no projeto Foto Escola. Seus depoimentos se
prenderam ao prazer de aprender de forma diferente e à compreensão
propiciada pelo uso integrado das tecnologias. Alguns alunos indicaram ter
compreendido o funcionamento da máquina fotográfica em função da animação
propiciada pelos recursos do software e, posteriormente, pela representação
que fizeram no computador. Um aluno identificou com clareza a diferença
entre ver o desenho estático de uma máquina fotográfica no papel e
observar no software os movimentos de dispositivos que colocam a máquina
em funcionamento: “O computador nos ajudou a entender o funcionamento da máquina fotográfica, o que seria bem mais difícil somente olhando para um desenho da máquina feito no papel. Vimos também o processo de revelar a foto.” u Além desse projeto, o professor orientou um projeto para a criação do roteiro de um filme rodado pelos alunos do 1o ano do Ensino Médio. A organização das idéias do filme foi trabalhada coletivamente durante um bimestre e deu origem ao roteiro, à caracterização dos personagens, ao planejamento das cenas, etc. Os papéis foram assumidos pelos alunos: editor, diretor de imagem, eletricista (aluno, cujo pai é eletricista), atores, responsável pela sonoplastia – DJ (aluno que ajuda conjuntos musicais), operador de câmera, figurantes, diretor de ensaios. O computador foi empregado para compor a abertura e o fechamento do filme e para editar textos no PowerPoint. u Outro projeto desenvolvido pelo mesmo professor com os alunos do 1o ano do Ensino Médio trata da montagem de um documentário. O professor diz que lançou a idéia para várias turmas, mas somente uma encantou-se com a idéia. Os alunos se mobilizaram na distribuição dos grupos para apresentação do documentário, escrita do roteiro, levantamento dos recursos necessários (disponíveis e a providenciar). O tema escolhido foi Coleta de Lixo na localidade que, segundo o professor, era uma problemática séria e polêmica na cidade porque o lixo era freqüentemente jogado às margens da rodovia e arrastado por uma cachoeira, correndo pela mata e deixando um rastro de garrafas de plástico e outros dejetos, o que criava um sério problema para a preservação ambiental. O
documentário envolveu a realização de uma pesquisa de campo, na qual os
alunos visitaram a Prefeitura para obter dados técnicos sobre o lixo,
tais como número de vezes por semana em que deveria ocorrer a coleta,
produção de lixo per capita, locais previstos para armazenamento
do lixo etc. Depois verificaram as condições desses locais, o tratamento
dado ao lixo e a rota do caminhão coletor. O PowerPoint e o Excel foram
usados para representar o conhecimento, à medida que os dados eram
coletados. Este trabalho se articulou com outra pesquisa já desenvolvida
sobre o lixo e publicada no jornal da escola, orientada pelos professores
de Português. O
professor de Educação Artística considerou a clareza das intenções
dos projetos como fator essencial ao sucesso do ensino e da aprendizagem.
Para aguçar a curiosidade dos alunos, criava desafios e, para evitar que
desanimassem diante das dificuldades, fornecia-lhes sugestões de ações
para o encaminhamento dos projetos, conforme salientou: “Os alunos se entusiasmam com qualquer atividade diferente, mas é preciso ter clareza do que se pretende fazer. Se o professor não tem um projeto, ele pode se perder no meio do caminho e aí é difícil recuperar o ânimo do pessoal. Quando os alunos dizem: vamos fazer isso? Eu digo logo: já pensaram nisso? E naquilo outro? Diante disso, os alunos tendem a desanimar, mas eu os estimulo a elaborar o roteiro do projeto que desejam desenvolver. Então é preciso que tenhamos tudo bem claro para depois fazer.” Referências bibliográficas Freire,
P. & Shor, I. Medo e ousadia. O cotidiano do professor. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1986. NOTAS: 1
Professora do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo
e do Departamento de Ciência da Computação da PUC/SP. 2
Consulta realizada na Web em 25.07.2003: http://www.tribunadonorte.com.br/mensal/escola/escola5.html 3
Projeto interdisciplinar colaborativo em que alunos e educadores de
seis países trocam informações e experiências sobre preservação dos
rios. 4 Rede de Tecnologias de Aprendizagem EUA/Brasil, Projeto LTNet: http://www.ltnet.org.
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