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CARTOGRAFIA NA ESCOLA
PGM 1
– O
DESENHO E O MAPA Rosângela
Doin de Almeida1 Entre
as linguagens gráficas encontram-se o desenho e o mapa. O primeiro
consiste em uma das manifestações mais antigas da humanidade,
presente na cultura de praticamente todos os povos. Aparece
espontaneamente nas atividades das crianças, desde bem pequenas. O
segundo resulta de séculos de acumulação de conhecimentos e do
desenvolvimento de técnicas cartográficas, o que exige um longo
aprendizado para que se possa ler e entender os mapas. No entanto,
quando pensamos em ambos como linguagens podemos
estabelecer paralelo interessante entre eles, no ensino. Há
diversos estudos a respeito do desenho de crianças. Vamos nos ater,
neste texto, a aspectos relativos à representação do espaço no
desenho infantil. É conveniente, antes, lembrar as fases do desenho,
pois são mencionadas em muitas publicações destinadas aos
professores. Uma
das primeiras publicações a respeito do desenho de crianças foi
realizada por Georges-Henri Luquet, em 1913, ao escrever a obra Os
desenhos de uma criança, na qual apresenta os desenhos de sua
filha. Em 1927, publicou a obra clássica O desenho infantil.
Conforme visão vigente em sua época, Luquet considerou as produções
gráficas das crianças tomando como referência o desenho do adulto,
daí a interpretação dada por ele repousar na noção de realismo.
Apesar de não aceitarem esse ponto de vista, estudos posteriores,
principalmente em psicologia, continuaram a usar a terminologia de
Luquet, o que lhes deu uma visão marcadamente evolutiva. A influência
desses estudos no ensino pode levar os professores a verem, de modo
inadequado, os desenhos das crianças como produções a serem
melhoradas, ou até como incorretas. Para
as crianças, desenhar é brincar. “A criança desenha para se
divertir”, disse Luquet. Os primeiros desenhos são feitos pelo
prazer de riscar, de explorar as possibilidades do material (lápis de
cor, giz de cera, caneta hidrográfica), para produzir efeitos
interessantes no papel. É uma atividade lúdica, na qual os rabiscos
não têm um significado determinado. Quando
a criança percebe que grafismos podem significar coisas, inaugura uma
nova fase, que Luquet denominou incapacidade sintética,
na qual ainda predominam rabiscos que são associados a objetos do
mundo real, porém o mesmo rabisco, conforme o momento, pode
representar diversos objetos. As
crianças vão desenvolvendo grafismos mais elaborados, diferenciando
formas retilíneas e curvilíneas, porém não integram elementos no
desenho para compor figuras ou cenas, os elementos permanecem apenas justapostos.
É
comum ocorrer justaposição de desenho e imitação de escrita, o que
atende à necessidade de registrar as explicações sobre o desenho,
antes feitas oralmente. Podemos, talvez, considerar essas explicações
como forma de estabelecer uma ligação entre os elementos. Desenho
e escrita evoluem por caminhos paralelos na construção do
conhecimento pela criança. Quando a criança percebe que seus
rabiscos servem para apresentar objetos e que é ela
quem estabelece a relação entre o desenho e o objeto, inicia-se a
construção de um amplo sistema gráfico, no qual engendram-se a
escrita e outras formas gráficas, como os mapas. Relembramos
que “considerando o desenho dessa forma, pode-se ir além dos estágios
do desenho infantil, e analisá-lo como expressão de uma linguagem,
da qual a criança se apropria ao tornar visíveis suas impressões,
socializando suas experiências” (Almeida, 200, p. 27). Quanto
à relação entre os elementos no espaço, os desenhos infantis
apresentam, inicialmente, objetos isolados. Podem estar no mesmo campo
visual, o que configura uma tentativa de estabelecer relação entre
eles. O autor do desenho abaixo (figura 1) apresenta uma cena: uma
casa e flores sobre o solo, acima aparecem
nuvens e o Sol. A cena está estruturada no papel a partir de uma linha
de base que estabelece relação espacial entre
os objetos (inter-figural), que estão acima da mesma,
ocupando posições à direita e à esquerda uns dos outros. Neste
caso, as flores estão à direita da casa. Figura 1: Casa com flores (André, 5 anos e 10 meses)
Estudando
produções de diversas crianças Luquet chamou de realismo
intelectual a fase em que não incluem apenas os objetos que
podem ver, mas também aquilo que elas sabem que existe. Nesses
desenhos, há ausência de elementos visíveis e acréscimo de
elementos que não são visíveis; aparecem formas peculiares de
perspectiva como rebatimentos, mistura de pontos de vista
e justaposição espacial e temporal. São comuns
desenhos com transparências, como o exemplo da figura
2, onde aparece a casa, com objetos, a mãe e a criança, o cachorro e
o gato; do lado externo, o papai está caminhando para o trabalho. Figura
2 – Casa desenhada por René. Fonte: Freinet (1977, p. 222).
Os
rebatimentos dizem respeito à representação de
elementos de um plano sobre outro, geralmente do plano vertical sobre
o horizontal. Desenhar objetos em um mesmo campo visual, mas sob
pontos de vista diferentes, é um recurso muito usado pelas crianças
para apresentar no espaço gráfico (bidimensional) uma situação
observada no espaço real (tridimensional). Na figura 3, a criança
apresenta o prédio visto de frente, o pátio visto de cima e
justaposto ao prédio. No pátio, desenhou crianças e outros objetos
rebatidos. Figura 3 – Prédio e jardim desenhados por Simonne Luquet. Fonte: Luquet (1969, p. 176).
A
figura 4 mostra o desenho do quarteirão onde um menino mora. As ruas
aparecem sob o ponto de vista de cima, todas as casas sob o ponto de
vista frontal. Figura
4 – Quarteirão onde mora Eric.
Fonte: Chombart de Lauwe. Espaces d’enfants. Ed. Delval. 1987. p. 60.
Apesar
da mistura de pontos de vista, seu autor manteve as mesmas relações
espaciais para todos os objetos: as casas estão alinhadas com a calçada
e rebatidas sobre o plano das quadras, sem rotação, de maneira que
algumas aparecem de lado ou de ponta-cabeça. Há proporção entre o
tamanho das casas, apesar de estarem grandes em relação ao tamanho
das quadras. Este desenho se aproxima de um mapa, o que caracteriza o realismo
visual, quando há mais cuidado com as perspectivas, proporções,
medidas e distâncias.
Nos
exemplos, indicamos como o espaço aparece – na relação entre os
elementos de um mesmo objeto e na relação entre objetos em um mesmo
campo visual –, como reflexo das concepções da criança, não
apenas sobre o real, mas sobre como apresentá-lo graficamente.
Refletem, portanto, diferentes formas de linguagem gráfica,
elaboradas a partir de conceitos que as crianças constroem a esse
respeito. Queremos ir um pouco mais adiante, nesta tentativa de
estabelecer paralelos entre o desenho infantil e os mapas. Uma
atividade muito comum entre as práticas escolares é o desenho do
trajeto que a criança faz de sua casa à escola. Geralmente, as crianças
desenham a casa em um canto do papel e a escola em outro, ligando-as
com uma rua, na qual acrescentam alguns detalhes como outras edificações,
árvores etc. A solicitação feita às crianças pode direcionar a
resposta que elas apresentam no desenho. Muitas vezes, desenham poucos
detalhes nesse trajeto por terem entendido que isso é suficiente para
indicar o caminho percorrido. Nesta atividade, é possível
estabelecer relações mais estreitas entre o desenho e o mapa. Uma
discussão com as crianças levanta questionamentos que as leva a
perceber que os desenhos podem ter finalidades mais específicas: o
desenho que você fez serve para indicar como chegar em sua casa? Um
colega que não saiba onde você mora pode usar o desenho que você
fez para ir da escola para sua casa?O caminho que você faz para vir
de sua casa para a escola é o mesmo para ir da escola para sua casa?
Outras
perguntas levam a pensar em atributos relacionados aos mapas, como: uLocalização
e distância: No desenho, que elementos estão mais próximos de
sua casa (e longe da escola)? Que elementos estão a meia distância?
E, que elementos estão mais próximos da escola (e longe de sua
casa)? u
Escala: Quais os maiores elementos que aparecem em seu
desenho? (cinema, escola, igreja) Que elementos têm um tamanho médio?
(casas, garagens) Que elementos são pequenos? (banca de jornal). u
Ponto de vista: Como você faria para desenhar as casas,
a escola, etc. vistos de cima, como se você estivesse vendo-os de um
avião? A
partir de discussões desse tipo, as crianças percebem que poderiam
incluir outros detalhes, que podem ser acrescentados no mesmo desenho,
ou podem fazer um outro. Essas produções não devem ser descartadas,
mas comparadas e guardadas para uso em outras aulas. É
importante ter sempre em mente que é desejável, nas práticas
escolares, incluir diferentes linguagens. Assim, falar sobre o desenho
(ou escrever) amplia as possibilidades de construção de conhecimento
pela criança. Uma idéia de atividade, no contexto do que dissemos
acima, pode ser pedir para que os alunos formem duplas e troquem os
desenhos, observando a produção do colega digam (ou escrevam) o que
entenderam, o que não está claro, o que acrescentariam, que comparação
fazem com seu próprio desenho. É preciso sempre falar sobre o
desenho, realizar outros registros, completar, discutir... As
práticas com desenhos não eliminam o uso de mapas, ou vice-versa.
Quando os alunos usam mapas podem continuar a usar desenhos para
registro de observações em trabalhos de campo, para apresentar uma
área estudada ou como mapas mentais. Referências
bibliográficas ALMEIDA.
R.D. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola.
São Paulo: Editora Contexto. 2001. FREINET,
C. A aprendizagem do
desenho. In: O Método
natural. Trad.
Franco de Souza e Teresa Balté.
Lisboa, Editorial Estampa.
vol. II. (Biblioteca
de Ciências Pedagógicas, 13). 1977 LUQUET,
G.H. O desenho infantil. Porto: Livraria Civilização
– Editora. 1969. Piaget
& Inhelder. B. A representação do espaço na criança.
Trad. Bernardina Machado de Albuquerque.
Porto Alegre, Artes Médicas.
1993. PILLAR,
A D. Desenho e construção do conhecimento na criança.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. PILLAR,
A D. Desenho e escrita como sistemas de representação. Porto
Alegre: Artes Médicas. 1996. NOTAS: *
Professora Adjunta do Departamento de Educação da UNESP –
Campus de Rio Claro (SP). Consultora desta série. |
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