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CARTOGRAFIA
NA ESCOLA Rosângela Doin de Almeida(1) A
série Cartografia na escola será apresentada de 2 a 6 de
junho no programa Salto para o Futuro/TV Escola e tem como principal
objetivo discutir como os mapas e outras formas de representar o espaço
podem ser estudados com turmas do Ensino Fundamental e Médio. No
ensino de Geografia, bem como de outras áreas, as atuais formas
produtivas exigem domínio de conhecimentos científicos e técnicos
veiculados amplamente pelos meios de informação. O indivíduo que não
domina as variadas formas de representação desses conhecimentos está
impedido de pensar sobre aspectos do território que não
estejam registrados em sua memória. Então, uma das funções da escola
consiste em preparar o aluno para compreender a atual organização da
sociedade, dando-lhe acesso às novas formas de representação da informação
espacial: mapas, fotografias aéreas, imagens de satélites. Os
mapas, durante muito tempo, foram considerados como o principal meio para
o ensino de Geografia, porém, nos currículos oficiais, constavam poucos
detalhes a esse respeito. Tais documentos mencionavam, principalmente,
“localização, orientação e representação de dados”, como
conhecimentos necessários para o estudo do espaço geográfico.
Atualmente, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de
Geografia nos 2 primeiros ciclos do Ensino Fundamental (1a
à 4a
série) citam, entre os conteúdos a serem ensinados, a “linguagem
cartográfica”. No primeiro ciclo, sugerem um início com a leitura e
produção de “mapas simples” e indicam como um de seus objetivos o
reconhecimento dos referenciais de “localização, orientação e distância”.
Já no segundo ciclo, a representação do espaço deve avançar para “o
aprofundamento da noção de proporção e escala” e para “os
referenciais de localização, os pontos cardeais, as divisões e
contornos políticos dos mapas, o sistema de cores e legendas”. No
volume dos PCN de Geografia para o 3o
e 4o
ciclos (5a
à 8a
série) foi destinado o eixo 4, “A Cartografia como instrumento na
aproximação dos lugares e do mundo”, para a abordagem da “linguagem
cartográfica”. É
a primeira vez que as recomendações curriculares oficiais tratam a
Cartografia, de modo mais específico, como parte do programa de
Geografia. Ainda que isso represente um avanço, várias questões devem
ser consideradas para que a Cartografia se torne, de fato, um bom meio
para se conhecer “os lugares e o mundo”. Durante
a série Cartografia na escola, que será apresentada de 2 a
6 de junho no programa Salto para o Futuro / TV Escola, pretendemos
discutir essas questões e mostrar como alguns professores procuram
desenvolver atividades criativas relacionadas com a representação do
espaço. Uma
dessas questões, e que nos parece a mais importante, é a grande
dificuldade apresentada por professores (e alunos) para lidarem com conteúdos
de Cartografia, em todos os níveis de ensino. Isso foi constatado em
diversos trabalhos apresentados nos colóquios Cartografia para Escolares
(realizados no Brasil). Parece-nos que o problema decorre de um ensino que
traz forte tradição calcada na transposição e simplificação de
conceitos científicos, ensinados, geralmente, por meio de práticas
repetitivas e pouco explicativas. Problema também relacionado com a formação
do professor, pois uma cartografia escolar ainda não se constituiu como saber
construído nas escolas, nem como uma disciplina dos cursos de
formação de professores. A
idéia de que a “linguagem cartográfica” a ser ensinada corresponde a
simplificações da Cartografia leva-nos a isolar partes ou elementos a
serem ensinados um a um (localização, escala, projeção e legenda),
fazendo do mapa um objeto de ensino, em lugar de
linguagem. Um
outro caminho consiste em considerar que um conteúdo de ensino
corresponde a uma reelaboração original, e não a uma simplificação do
saber científico. Isto é, considerar os saberes escolares como construção
social que, portanto, não são neutros, mas traduzem as funções
e os valores dados para a escola difundir em um “marco social
determinado” (Gimeno Sacristán, 1998). Nesse sentido, o fato de a
cartografia estar tomando lugar mais proeminente no currículo escolar
reflete o alto valor dado, atualmente, à Tecnologia e a todo conhecimento
a ela diretamente ligado. Considerando
os saberes escolares como construção social, o ensino tem um caráter
aberto, permeável a influências originadas fora da escola. Esta é vista
como um cenário onde os alunos reelaboram suas experiências pessoais, o
que lhes permite re-construir e co-construir o
conhecimento. A linguagem possibilita essa construção e
reconstrução. Sob este enfoque, a construção de conhecimentos sócio-espaciais
tem a mediação da linguagem cartográfica (entre outras),
que assume configurações ditadas por conteúdos referidos num contexto
sociocultural, e submetidos à cultura escolar. Assim,
há que se considerar que os conhecimentos cartográficos surgiram em
diferentes épocas, e em diferentes lugares. Hoje, aparecem compilados e
organizados com certa linearidade, apresentados em compêndios e livros técnicos,
o que lhes confere grande complexidade. Sem dúvida, não podem ser estas
as principais fontes do Ensino Fundamental e Médio. No entanto, conhecer
um pouco dessa história e saber como a produção dos mapas foi se
transformando é de grande valia para que os jovens percebam que, apesar
da aparente neutralidade, os mapas correspondem a intenções de controle
do território, ao mesmo tempo em que refletem concepções culturais. Evidencia-se,
ainda, que não há apenas uma cartografia, durante os tempos e em
diferentes culturas surgiram várias cartografias, como, por exemplo,
aquela criada pelos povos indígenas e ensinada nas escolas das reservas. Em
um sentido amplo, podemos considerar que a Cartografia corresponde à
linguagem criada para registros sobre os lugares. Apesar de não
corresponder exatamente ao que muitos cartógrafos consideram, essa definição
parece-nos muito apropriada para pensar a cartografia escolar. Registros
sobre o espaço aparecem nos desenhos feitos por crianças muito pequenas,
o que nos permite correr o risco de dizer que existe uma “cartografia
infantil”, ou melhor, que as crianças têm no desenho sua “linguagem
cartográfica”, perfeitamente possível de ser praticada na escola. O
desenho e a cartografia podem ser considerados no âmbito das linguagens
gráficas. Dessa maneira, estão relacionados no que se refere aos
registros espaciais: vemos nos desenhos de crianças que os objetos
aparecem localizados uns em relação aos outros (uma árvore ao lado da
casa, por exemplo), em tamanho menor, sob uma determinada perspectiva e
com traços que permitem dizer o que significam. Ora, aí estão postos os
elementos do mapa de uma só vez (localização, escala, projeção e
legenda), com significado dado pela própria criança. Ao lançar mão das
relações entre essas linguagens (desenho do espaço e linguagem cartográfica),
o professor leva o aluno a entender os mapas, sem partir para um ensino
isolado de cada um de seus elementos, superando as dificuldades originadas
em tentativas de fazer analogias errôneas ou detalhamentos desnecessários
(como cálculo de distâncias em mapas de pequena escala, determinação
de latitude e longitude para localizar pontos aleatórios no planisfério,
etc.). Assim, em lugar de pensar em “alfabetizar” o aluno com um código
gráfico (ou cartográfico) desprovido de conteúdo significativo,
abrem-se amplas possibilidades de práticas com o desenho do espaço, por
meio do qual são apresentados os conteúdos sócio-espaciais (a ocupação
urbana: avenidas, ruas, comércio, indústrias, rios, pontes, favelas,
etc. é um exemplo). Quando
pensamos em linguagem, estamos tratando de uma forma
de dizer algo (conteúdo). O domínio da linguagem é
possível quando as formas são sabidas e, ao mesmo tempo, se tem
conhecimento a respeito do que é dito, ou o que significa o conteúdo
apresentado. No caso da linguagem cartográfica, é preciso
ensinar como os conteúdos espaciais são apresentados, ao
mesmo tempo em que é preciso saber o que eles significam. Surge, então,
no caso das práticas escolares, outro desdobramento bem interessante: um
mapa de relevo, por exemplo, ao apresentar a distribuição das altitudes
por meio de tonalidades (tons escuros para áreas mais altas, e claros
para áreas mais baixas), diz também da distribuição da rede hidrográfica
(os rios correm para as áreas mais baixas). Mas para entender esse mapa
é preciso ter noção das relações entre a drenagem e a morfologia, que
pode ter-se originado pela observação de campo e produção de croquis,
ter passado pela observação ou construção de maquetes. Então, a
linguagem cartográfica no ensino deixa de ser um item isolado no
programa, um capítulo em que se ensina tudo sobre mapas de uma só vez!
Se for linguagem, deve servir para “ler”
os mapas impressos, bem como para “escrever”
a respeito de algo observado, discutido ou obtido em diversas fontes.
Portanto, atende a necessidades geradas no estudo de um tema ou problema
das áreas de ensino, não só de Geografia, diluindo-se em diferentes
momentos ao longo do Ensino Fundamental e Médio. Notamos
que a cartografia vem tomando maior importância no currículo escolar,
pois diversos livros e coleções didáticas, ou paradidáticas, foram
publicados na última década, o que nos leva a pensar se não corremos o
risco de que ela venha a ofuscar o ensino da Geografia, uma vez que está
revestida de certo “fetiche” dado por sua ligação com as novas
tecnologias (Atlas eletrônicos, sites sobre mapas, imagens de satélite,
etc.). Tomá-la como linguagem que possibilita a construção e reconstrução
de saberes, certamente evitará esse risco. Sabemos
também que a cartografia é um assunto novo na escola, pouco explorado
nos cursos de formação de professores, por isso esta série de programas
pretende abordar tanto discussões de fundamentação como sugestões de
atividades de ensino. Os temas dos programas abrangem a iniciação
cartográfica, os conceitos fundamentais da linguagem cartográfica, os
Atlas e mapas temáticos, os Atlas locais e o ensino do município, a
cartografia indígena, as fotografias aéreas, imagens de satélite e as mídias
eletrônicas. Gostaríamos
ainda de mencionar a existência do grupo Cartografia para Escolares,
formado por pesquisadores e professores brasileiros, que tem por objetivo
realizar pesquisas junto a universidades, escolas ou outras instituições
a respeito de diferentes temas relativos à formação de crianças e
jovens no domínio da linguagem cartográfica. Estes
são os programas que farão parte desta série: PGM
1: O desenho e o mapa Neste
programa, vamos explorar as diversas possibilidades de abordar o desenho
feito por crianças como linguagem gráfica. A idéia é mostrar que o
desenho do espaço contém os elementos do mapa, bem como indicar
paralelos entre essas formas de representação espacial, de maneira que o
professor possa visualizar procedimentos e atividades com desenhos de seus
alunos. Os paralelos entre desenho e mapa servirão para introduzir os
conceitos cartográficos, que serão discutidos no segundo programa. PGM
2: Noções cartográficas Sempre
é possível desenvolver noções cartográficas básicas (localização,
redução / escala, ponto de vista, orientação, projeção) a partir de
atividades que propõem problemas, questões significativas para os
alunos. Assim, eles têm papel ativo na construção do conhecimento:
pensando, realizando observações, fazendo registros, discutindo com os
colegas, buscando conhecimentos já elaborados (mas com intenções),
construindo interpretações etc. Para defender essa idéia são
apresentados variados exemplos de atividades, que vão da apresentação
da sala de aula por meio de desenhos, maquetes e plantas, até a observação
do movimento diário do Sol, com a ajuda do gnômon. PGM
3: A linguagem dos mapas Os mapas temáticos
encontrados nos livros didáticos e Atlas apresentam dados sobre
determinados territórios por meio de uma linguagem específica. Neste
programa, será apresentado como “ler” esses mapas, estabelecendo relações
entre as informações neles contidas. O ensino de gráficos e diagramas
também será abordado. Para
mostrar como os mapas podem variar conforme as épocas e as culturas, será
apresentada uma visita à exposição “O tesouro dos mapas”. PGM
4: Atlas escolares Os
Atlas geográficos escolares constituem-se em instrumento pedagógico
privilegiado, principalmente quando o enfoque curricular se volta para o
espaço local. A necessidade de se produzir Atlas locais e a importância
de se discutir práticas escolares com o uso desses materiais didáticos
serão os temas deste programa, apresentado através de duas experiências.
A produção de Atlas escolares municipais interativos para municípios do
vale do Jequitinhonha (MG) corresponde à primeira experiência, e a produção
de Atlas municipais escolares interdisciplinares, produzidos com a
participação de professores de escolas públicas, corresponde à segunda
experiência. PGM
5: Cartografia e novas tecnologias Este
programa destina-se a mostrar como são produzidos os mapas atualmente e
como fotografias aéreas e imagens de satélite podem ser usadas no
ensino, além de indicar fontes onde os professores podem obter materiais
e orientação para produzir atividades de ensino com essas tecnologias. Bibliografia
ALMEIDA,
R. D. de. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola.
São Paulo, Contexto, 2001. (Caminhos da Geografia). ALMEIDA,
R. D. de; SANCHEZ, M. C. & PICARELLI, A. Atividades cartográficas;
ensino de mapas para jovens. São Paulo, Atual, 1997. 4 volumes. BRASIL.
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais; Geografia (5ª a 8ª séries). Brasília, MEC/ SEF,
1998. BRASIL.
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais; História e Geografia (1ª a 4ª séries). Brasília,
MEC/ SEF, 1997. SACRISTÁN,
J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto
Alegre, Artes Médicas, 1998. SÃO
PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Coordenadoria de Estudos e
Normas Pedagógicas. Proposta Curricular para o ensino de Geografia.
1o
Grau. São Paulo, SE/CENP, 1988. NOTAS: *
Professora Adjunta do Departamento de Educação da UNESP –
Campus de Rio Claro (SP). Consultora desta série. | |
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SALTO PARA
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