Voltar à principal


Na ditadura, artistas paulistas sofreram censura e ameaças de agressão
Por Liésio Pereira

Músicas
Textos
Áudio & Vídeo
Na TVE e Rádio MEC

São Paulo -18 de julho de 1968. O Brasil vivia sob o regime militar e as artes, submetidas à sombra da censura e às ameaças de agressão. Um grupo de extrema direita chamado Comando de Caça aos Comunistas - CCC - invadiu o teatro Ruth Escobar (Galpão), em São Paulo, ao final de uma apresentação do espetáculo "Roda Viva", de Chico Buarque - dirigido por José Celso Martinez Corrêa - espancou artistas e depredou o cenário.

Os atores foram socorridos na residência do ator - e atual secretário de Apoio à Preservação da Identidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, na Rua dos Ingleses, região central da cidade.

"Eu vi a destruição de 'Roda Viva'. As pessoas foram atendidas na minha casa. Era um espetáculo do Chico Buarque, um musical, com a Marília Pêra e o Rodrigo Santiago. Em determinado momento, houve uma campanha contra o espetáculo e um grupo paramilitar - acho que eram 73 pessoas, pelo que eles declararam no jornal - fez a 'operação quadrado morto' contra a peça 'Roda Viva'. Invadiram o teatro, quebraram todo o equipamento e bateram, principalmente nas mulheres. O pronto-socorro foi na minha casa", recordou Mamberti.

Para o ator, vivências como a agressão aos atores e a luta contra a censura eram bastante doloridas, mas as dificuldades surgidas daí traziam o desafio de trabalhar "os questionamentos todos que nós fazíamos através da nossa obra, do teatro, do cinema... e a gente conseguiu".

Mamberti destaca que, apesar da censura, toda uma geração de grandes dramaturgos surgiu na época, como Flávio Márcio, Consuelo de Castro, Leilah Assunção e Plínio Marcos, entre inúmeros outros.

"Como dizia Bertold Becht: viver é perigoso. E é muito perigoso mesmo... Então, eu acho que esse processo, dentro dos anos de chumbo, foi extremamente difícil mas muito desafiante, muito estimulante, porque a gente tinha que criar dentro da impossibilidade. Teatro normalmente já é difícil de fazer mas nós fazíamos, mesmo sob a censura e sob a ditadura, sendo muitas vezes ameaçados de morte, como foi o caso de 'Navalha na Carne' (de Plínio Marcos, com Sérgio no elenco), que era considerado pornográfico", relembrou. Mamberti conta que "quando a gente viajou pelo interior, com medo de agressão, a gente tinha um carro na porta (dos teatros) para qualquer coisa que acontecesse. Nunca aconteceu nada, a peça se impunha. Apesar das forças reacionárias, o povo acolheu a peça do Plínio no coração porque era uma obra muito humana".

Sérgio Mamberti nasceu em Santos e formou-se como ator na famosa Escola de Arte Dramática (EAD), em 1962, hoje agregada à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Fundada por Alfredo Mesquita, a escola teve como alunos os atores Ney Latorraca, Paulo Betti e Aracy Balabanian, entre outros. Como professores, passaram por lá nomes como Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Antônio Candido.

"A Escola de Arte Dramática foi minha universidade, embora o curso não fosse universitário", contou Mamberti, acrescentando que "quando entrei para a escola do Alfredo (Mesquita), passei a freqüentar museus, Bienal (de Arte de São Paulo), a entrar em contato com esse mundo cultural da cidade. Foi maravilhoso. Aprendi muito o sentido da disciplina, da humildade, do sentido do coletivo, de como o teatro é uma arte coletiva e você depende um do outro, quer dizer, o famoso teatro de equipe".

Fonte Radiobrás

Fale com o WebMaster
Melhor visualizado em 800x600
©Copyright 2004– TVE Rede Brasil