(Extraído do livro Radiografia do Terrorismo no Brasil: 1966/1980.
São Paulo, Ícone Editora, 1985, p. 63-67.)
A cultura foi o alvo preferido das organizações [de
direita] CCC, MAC, GAC e FUR no final de 1968. São Paulo, em
julho, era palco de acontecimentos que apresentariam um balanço
violento ao final do ano. Nesse mês, a 18, o teatro Galpão
era invadido e depredado pelo CCC [Comando de Caça aos Comunistas],
cujos militantes espancaram atores e o público que assistia Roda
Viva, de Chico Buarque de Holanda. A atriz Marília Pera reconheceu
duas pessoas entre os agressores: Claudinei Brás e Edgar, seu
primo, mas ambos desapareciam como por encanto depois. No mesmo mês,
se dava o atentado ao teatro Maison de France, no Rio, onde se representava
O Burguês Fidalgo, de Molière, um equívoco provocado
pelo clássico francês nas cabeças de terroristas
ignorantes. Dia 22, os jornalistas recebiam a próxima agressão,
com a explosão, pelo CCC, de bomba na ABI - Associação
Brasileira de Imprensa - ainda na capital carioca. Em agosto, mais dois
teatros sofrem ataques de bomba: a 2 o teatro Opinião, e três
dias depois o teatro Glaucio Gil, com Os Inconfidentes em cartaz. Em
setembro, os terroristas deixavam uma advertência no teatro João
Caetano (RJ), após jogarem bomba que não explodiu (tinha
um número e pertencia ao Ministério da Aeronáutica).
Em cartaz, Feira Paulista de Opinião.
Roda Viva percorreria uma temporada cheia de incidentes. Em Porto
Alegre, à véspera da estréia do espetáculo,
a 5 de outubro, panfletos distribuídos pela cidade, diziam: "Hoje
a integridade física e moral dos atores está garantida,
mas amanhã. . . " No dia seguinte, os atores foram cercados
e brutalmente espancados por cerca de 200 "desconhecidos".
Elizabeth Gasper e seu marido Zelão foram seqüestrados por
algumas horas. Contaram depois suas experiências.
- Não podíamos resistir - contou Zelão. - Por isso
subimos num dos carros. Começaram a rodar com os faróis
apagados e primeiro foram a um lugar longe que não reconhecemos.
Em determinado momento, eles começaram a fazer guerra de nervos:
paravam, desciam, entravam e saiam de novo. Um deles tirou um soco inglês
do porta-luvas e recolocou-o no lugar. Fomos por uma estrada de terra
com uma porção de desvios, até um lugar completamente
desabitado. Então, um deles disse: Aqui está muito perto,
alguém pode ouvir. Fomos mais adiante, onde nos convidaram a
descer: Agora, vamos fazer a peça Roda Viva aqui, disse um deles.
Elizabeth, então falou que só ela era a atriz, e que eu
era seu marido. Puseram-nos num curral cercado de arame farpado e mandaram-na
cantar a música da peça. Elizabeth não teve outro
jeito e acabou cantando "Luar", e eles aplaudiram. O que me
parecia o chefe veio me dando lições de moral e perguntando
como eu deixava a minha mulher trabalhar nisso. Chamou-me de vários
nomes e disse que nunca mais Roda Viva entraria em Porto Alegre. Em
seguida, deu prazo até 16 horas para sairmos da cidade. Levamos
duas horas para sair do mato e achar a estrada. Aí então,
descobrimos que estávamos a 30 quilômetros de Porto Alegre.
Esses acontecimentos não foram menos dramáticos que
aqueles vividos por Norma Benguel em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Norma participava da montagem de Cordélia Brasil, no Teatro de
Arena de São Paulo. A atriz foi seqüestrada dia 8 de outubro
em São Paulo e libertada no Rio de Janeiro por oficiais do Exército
brasileiro. Dias antes, ela depôs na Polícia Federal acerca
de declarações envolvendo as Forças Armadas. Livre,
Norma só teve o consolo de narrar à imprensa a sua experiência
amarga. Foi seqüestrada no hotel por três homens fortes e
levada para o Rio em apenas quatro horas.
- Pensei que eram ladrões ou CCC. Reagi e eles me jogaram dentro
do carro, enquanto Emílio Di Biasi ficou estirado no chão.
(Norma conta que já na estrada, um dos raptores pediu-lhe que
não se preocupasse, pois eram da polícia, mostrando-lhe
a carteira).
- Durante todo o tempo, disseram-me para desculpar a maneira, mas que
eram ordens. Lá pela uma hora mais ou menos, eu chegava ao Rio:
1o Batalhão Policial. Fui encaminhada para uma sala com a sigla
PIC na porta. Às 9 horas da manhã, chegou um comandante
gritando que não gostava de mulher lá dentro, mas que
era muito bonzinho com os seus sargentos. Às 9h30, chegou o coronel.
Disse a ele que iria contar à imprensa tudo que me aconteceu
e ele retrucou: "Nós estamos numa democracia, a senhora
pode falar o que quiser". Era o coronel Helvécio Leite,
do gabinete do Ministério do Exército, que me interrogou
por cinco horas, dizendo que eu era acusada de colaborar com o Partido
Comunista Brasileiro e levar panfletos para a passeata estudantil no
dia em que fui raptada.
Conta Norma que o coronel fez muitas perguntas sobre peças em
cartaz e a participação dos artistas na vida política
do país. A atriz foi solta às 14h30 e conduzida à
casa de uma amiga no Rio, sempre escoltada pelo coronel Helvécio
Leite. À noite, era levada ao aeroporto do Galeão, onde
o coronel comprou uma passagem e a colocou no avião que a traria
de volta a São Paulo. Nesse instante, Norma Benguel já
estava com o ator Walmor Chagas, que a encontrara por acaso no aeroporto.
A ele, o coronel também disse: "Foi um lamentável
engano político".
Fonte: Perseu
Abramo