"Eu confesso que é com verdadeira
violência aos meus princípios e idéias
que adoto uma atitude com esta."
(Presidente COSTA E SILVA)
Pela movimentação da véspera, podia-se esperar
uma sexta-feira, 13, cheia de desassossego. Mas nem a superstição
podia adivinhar que aquele dia iria durar mais de uma década.
Costa e Silva, segundo seus exegetas, acreditava que o AI-5 acabaria
em oito ou nove meses. Costa e Silva acabou antes.
Naquele dia 13, o marechal seria protagonista de um espetáculo
em que 22 dos 23 figurantes pareciam dirigidos pela estética
de José Celso Martinez Corrêa, que era capaz de dar a uma
tragédia a forma de farsa, misturando chanchada, teatro de revista,
circo e Chacrinha. Em apenas um ato, os atores que comandavam o país
representaram todas as alegorias que o Tropicalismo havia posto na moda:
o Cinismo, a Hipocrisia, o Servilismo, a Pusilanimidade, a Lisonja,
a Subserviência. Mas isso foi mais tarde.
Às 9h30min da manhã, como estava programado, o presidente
compareceu à Escola Naval para presidir as solenidades de formatura
de cadetes e a entrega da Ordem do Mérito Naval. Acompanhado
dos seus oficiais de gabinete, Costa e Silva foi recebido pelo ministro
Augusto Rademaker, pelo comandante da Escola e por outros oficiais.
Antes da cerimônia de declaração dos novos guardas-marinha,
haveria a entrega das condecorações no pátio externo
da Escola Naval.
Enquanto a comitiva presidencial passava por entre as 111 personalidades
a serem agraciadas - militares, senadores, deputados, embaixadores -
, o discreto secretário de Imprensa, a alguns metros de distância,
ia observando a reação dos diversos militares presentes
- do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. Heráclio
viu, por exemplo, quando um coronel do Exército encontrou-se
com o general César Montagna e perguntou:
- Olá, chefe, como é que está o senhor?
- Como é que posso estar, rapaz? Estou com meu clube, quero o
AI-5.
Como membro da comitiva, o major D'Aguiar pôde perceber também
o mal-estar
do ambiente:
O lugar estava engalanado, muito bonito, mas nós fomos mal-recebidos;
as fisionomias estavam fechadas, carrancudas, não havia aquela
espontaneidade, a alegria de outras solenidades. O presidente foi recebido
quase friamente. Estava todo mundo desconfiado de todo mundo.
Talvez por isso, o general Portella tenha tido que repetir tantas
vezes naquela manhã o que já dissera a noite toda, sem
trair o segredo, mas como uma senha: "Não sei qual é
a decisão, mas é pra valer".
Da solenidade na Escola Naval, o presidente foi direto para a reunião
com seu alto comando, às 11 horas, no Laranjeiras, onde pediu
a cada um dos presentes que desse a sua opinião sobre a medida
que ira adotar. Ao chegar atrasado, o ministro da Justiça provocou
os dois únicos momentos de riso daquele encontro de tenebrosas
intenções: o primeiro, quando o presidente resolveu gozar
o atraso de Gama e Silva; o segundo, quando este fez a sua exposição,
começando por ler um manifesto à nação,
para em seguida propor um ato adicional tão radical que o próprio
Lira Tavares interrompeu-o, arrancando risos gerais:
- Assim, não, Gama; assim você desarruma a casa toda.
Gama e Silva propunha o recesso do Supremo Tribunal Federal e o fechamento
definitivo do Congresso, das Assembléias e das Câmaras
de Vereadores. Não era aquilo o que o presidente queria. Gaminha
não se abalou: tirou rapidamente da pasta o rascunho de
outro texto menos drástico.
A reunião não ofereceu surpresas. Costa e Silva levara
anotações das medidas a serem tomadas e, no final, pediu
ao ministro da Justiça e ao deputado Rondon Pacheco que transformassem
o esboço no que viria a ser o Ato Institucional nº 5. Mas
antes, por sugestão de Rondon, mandou chamar os ministros do
Planejamento e da Fazenda para saber se a medida provocaria repercussões
negativas na política econômico-financeira do governo.
Jayme Portella, o emissário da convocação, relata:
"Os ministros Hélio Beltrão e Delfim Neto declararam
que nada a afetava, podendo ser o ato editado tranqüilamente."
Logo depois da reunião preliminar, às 13 horas, o presidente
autorizou que as decisões ali tomadas fossem comunicadas, em
"caráter sigiloso", aos escalões subordinados.
Alguns ex-assessores do presidente Costa e Silva alimentam até
hoje a ilusão de que, se o ato proposto tivesse encontrado uma
razoável oposição, alguma fórmula menos
radical teria sido encontrada.
"Estou convencido", diz D'Aguiar, "que se houvesse
uma divisão grande - Pedro Aleixo, por exemplo, e mais oito ou
nove de um lado - o presidente procuraria outra solução
que não o AI-5."
Como é uma hipótese, vale a pena introduzir outra: se,
antes mesmo da oficialização, os principais escalões
das Forças Armadas iam tomar conhecimento da decisão,
que exigiam impacientemente há pelo menos 24 horas, seria possível
admitir outro desfecho para a reunião das 17 horas?
Por uma razão ou por outra, Costa e Silva resolveu realizá-la
com toda a liturgia de uma reunião histórica, decisiva,
embora na prática ela só tivesse valor simbólico,
já que o Conselho de Segurança Nacional, sem poder deliberativo,
iria apenas sancionar uma decisão já tomada.
O presidente apresentava naquela tarde a disposição
de quem se preparara para não perder nada do espetáculo
que ia dirigir; nem a excitação em que se encontrava ele
queria diminuir. Quando, às 16 horas, o seu médico, Dr.
Élcio Simões, tirou-lhe a pressão e, assustado,
quis medicá-lo imediatamente - segundo D'Aguiar, ele atingira
20 por 13 -, Costa e Silva retrucou:
- Não, hoje preciso dela bem alta.
Com a pressão mantida, o presidente Costa e Silva abriu, uma
hora depois, a 43a. sessão do Conselho de Segurança Nacional,
no Salão de Despachos no segundo andar do Palácio das
Laranjeiras.
Quando era conduzido de seu gabinete pelo general Portella, o presidente
encontrou o seu vice, a quem fez o carinho de segurá-lo pelo
braço e levá-lo a um canto para uma conversa a dois. Segundo
vários testemunhos, inclusive familiares, um tinha pelo outro
muito apreço e respeito. "Dificilmente" - escreveria
mais tarde José Carlos Brandi Aleixo num livro sobre o pai -
"se encontrará, na história republicana, um relacionamento
tão correto e cordial entre um presidente e seu vice como no
caso de Costa e Silva e Pedro Aleixo." Aleixo era tido como um
conselheiro que pesava nas decisões do presidente, embora naquele
dia isso não fosse ocorrer.
Observadores da cena, como Portella e D'Aguiar, calculam que os dois
tenham conversado ali na porta do salão uma meia hora. Para quem
estava ansioso em começar a reunião, olhando o relógio
a cada instante e chamando a atenção do chefe do Gabinete
Militar para o horário, o tempo gasto na conversa dava a medida
da importância do interlocutor.
Aleixo, que não participara da reunião das 11 horas
- vindo de Belo Horizonte, ele chegou depois, acompanhado do ministro
Passarinho - expunha a sua desaprovação à medida
a ser adotada. O vice procurava convencer o presidente de que o estado
de sítio era o instrumento constitucional indicado para resolver
a crise. A conversa foi interrompida quando os membros do Conselho já
estavam entrando no salão para ocupar seus lugares, em frente
aos quais havia uma pasta com algumas folhas de papel datilografado.
Na cabeceira, dois gravadores iriam funcionar como incômodos
ouvidos da História.
Em volta da mesa e do presidente, estavam sentados os ministros e
chefes de Estado-Maior, isto é, as 24 autoridades mais poderosas
do país.
Costa e Silva abriu a reunião anunciando que o momento era
crítico e por isso teria que tomar "uma decisão optativa":
ou a Revolução continuava ou se desagregava. Ele acreditava
que todos ali, além do povo, eram testemunhas do seu empenho
em promover a união da área política e da área
militar.
Demonstrando ressentimento pelo que classificava de falta de apoio
político, o presidente não se conformava com a recusa
do Congresso. As "considerações" que o seu governo
dispensara aos políticos já lhe tinham criado inclusive
problemas na área militar e revolucionária.
O presidente declarava não ter apego ao cargo e desejava chegar
rapidamente ao fim do governo para passá-lo a quem pudesse promover
a "harmonia entre a área política e a área
militar, porque sem ela o Brasil irá à desagregação".
Em seguida, comunicou que se retiraria por uns 15 minutos para que
os conselheiros pudessem ler mais à vontade o documento que estava
na pastas, o AI-5.
Vinte minutos depois, Costa e Silva voltava ao salão, conduzido
pelo general Portella, e dava a palavra a Pedro Aleixo, "a maior
autoridade deste conselho".
O tom sereno do discurso do vice-presidente, a segurança da
argumentação e a coragem de enfrentar uma platéia
contrária, iriam impressionar até quem dele discordava,
como o então major D'Aguiar, que ainda se comove com a lembrança:
"Ele parecia tocado pelo Divino Espírito Santo: fez uma
corajosa, emocionante, brilhantíssima exposição".
O orador começou sustentando que o caso Márcio Alves
deveria ser encaminhado mais na área política do que propriamente
na área jurídica, porque não seria legítimo
esperar da Câmara um processo contra um dos seus membros por palavras
proferidas durante os discursos, em debates ou em votos e pareceres.
Ele não considerava "aconselhável", do ponto
de vista jurídico, a representação ao Supremo Tribunal
Federal. Como o ato praticado implicaria o máximo, segundo Aleixo,
crime de injúria, difamação e calúnia, as
possíveis sanções ao deputado não poderiam
ter o alcance da perda de mandato. O vice-presidente reconhecia o impacto
do discurso das Forças Armadas e admitia ser aquele "um
dos momentos mais graves e mais difíceis para a vida nacional".
Nesta oportunidade, pois, o que me parece aconselhável, seria,
antes do exame de um Ato Institucional, a adoção de uma
medida de ordem constitucional que viesse a permitir o melhor exame
do caso em todas as suas conseqüências. A medida seria a
suspensão da Constituição por intermédio
do recurso do estado de sítio. Acrescento, senhor presidente,
que da leitura que fiz do Ato Institucional cheguei à sincera
conclusão de que, o que menos se faz nele, é resguardar
a Constituição (...). Da Constituição, que
é, antes de tudo, um instrumento de garantia dos direitos da
pessoa humana e da garantia dos direitos políticos, não
sobra, nos artigos posteriores, absolutamente nada que possa ser realmente
parecido com uma caracterização do regime democrático.
(...) Pelo Ato Institucional, o que me parece, adotado este caminho,
é que estaremos com uma aparente ressalva da existência
de vestígios dos poderes constitucionais decorrentes da Constituição
de 24-1-67, e instituindo um processo equivalente a uma própria
ditadura.
Enfim, a palavra que dava nome real aos verdadeiros objetivos daquela
solene encenação: ditadura. Aleixo admitia que pudesse
haver necessidade de adotá-la, mas nesse caso, do ponto de vista
jurídico, não havia dúvida: "O Ato Institucional
elimina a própria Constituição." Ele não
entendia nenhum ato institucional que não significasse "uma
nova revolução", que não era, para ele, "a
de 31 de março de 1964".
Um dos estudiosos do período, o jornalista Elio Gaspari - quem
talvez mais tenha-se debruçado sobre os documentos dessa época
- acha que Pedro Aleixo cometeu "o monumental equívoco de
fixar-se numa argumentação jurídica, aceitando
a possibilidade da ditadura, desde que ela não se pretendesse
constitucional". Gaspari baseia-se, principalmente, no trecho em
que o vice-presidente afirma: "Caso se torne necessário
fazer essa Revolução, é uma matéria que
pode ser debatida e acredito até que se possa demonstrar que
essa necessidade existe." Segundo o jornalista, que está
escrevendo um livro sobre os governos militares, a linha de argumentação
de Aleixo desabou "na medida em que ele estava numa mesa de senhores
interessados em proclamar uma ditadura, e não em discutir a legalidade
do ato".
Mesmo assim, há indícios evidentes de que o discurso
de Pedro Aleixo desagradou à grande maioria dos presentes, não
só pela impaciência com que alguns o ouviram - a ponto
de obrigar o presidente, a certa altura, a pedir silêncio - como
pelos votos que se seguiram, todos os 22 a favor da edição
do AI-5.
Quanto à reação do presidente, há um mistério.
Observadores da reunião, como Heráclio Sales e Hernani
D'Aguiar, um, assessor de Imprensa, e outro, de Relações
Públicas, o primeiro contra o AI-5 e o segundo a favor, mas tendo
em comum a mesma vontade de isenção, afirmam que Costa
e Silva ficou tão impressionado com a fala de Aleixo que pediu
ao sargento que cuidava dos gravadores que voltasse atrás a fita.
O pretexto era dar oportunidade aos que, sentados do outro lado da mesa,
não perdessem nada do que fora dito. Na verdade, conforme aquelas
testemunhas, Costa e Silva teria usado um hábil estratagema para,
quem sabe, abalar algumas das convicções presentes e até
reverter opiniões.
"Ele tinha esperança de que o Conselho de Segurança
Nacional votasse contra", garante Heráclio, que reconstitui
o episódio:
Ficou aquele silêncio constrangedor e a voz de Pedro Aleixo massacrando
novamente aquele colegiado todo favorável ao AI-5. Os argumentos
jurídicos, políticos, éticos, morais e de conveniência
apresentados com aquela lucidez, aquela articulação verbal,
um negócio extraordinário.
O depoimento do assessor de Relações Públicas
é semelhante:
Ouvida a mesa, determinou o presidente que se repetisse a gravação
de toda a exposição inicial de Pedro Aleixo. Talvez movido
pelo seu subconsciente, recomendou que todos meditassem sobre as palavras
do "ilustre brasileiro Pedro Aleixo". No mais profundo e respeitoso
silêncio, a gravação foi escutada por inteiro. Depois
disso, o presidente perguntou a cada um dos presentes se mantinham o
voto anterior, ou se modificavam em face da argumentação
repetida.
D'Aguiar não entende por que o seu amigo Jayme Portella não
registrou a cena - logo ele que, como um arguto repórter moderno,
nunca desprezou detalhes de hora, clima, gestos, inclusive pequenos
flagrantes do presidente fazendo palavras cruzadas em momentos críticos
- enfim tudo aquilo que faz do seu livro, ainda que mal-escrito, um
imprescindível documento para a reconstituição
da época.
O único registro oficial da 43ª reunião do Conselho
de Segurança Nacional, porém, não se refere ao
incidente. Nem a gravação feita por dois gravadores, nem
a conseqüente ata da histórica sessão, arquivadas
sigilosamente na Secretaria-Geral do CSN, fornecem sequer vestígios
da cena. Sensível, a fita era, porque em uma hora de gravação
captou inclusive ruídos de sirene vindos do exterior.
Também a cópia do discurso do vice-presidente, que o
general Golbery do Couto e Silva ofereceu à família Aleixo,
não contém qualquer registro do gesto de Costa e Silva.
Toda essa controvérsia, no entanto - se a cena de fato ocorreu,
se o trecho foi apagado -, tudo isso poderia ser facilmente esclarecido,
assim como o verdadeiro desempenho dos personagens. Talvez por efeito
do tempo, o que eles disseram na histórica sessão do CSN
tem sido oferecido à opinião pública em versões
que, ou foram maquiladas pela imaginação, ou sofreram
reparações cosméticas operadas pela vergonha retrospectiva
de cada um. Neste ano de 88, quando a edição do AI-5 completa
duas décadas e a Constituinte extinguiu o CSN, criando o Conselho
de Defesa Nacional, alguns dos signatários - como Passarinho,
Beltrão, Delfim, por exemplo - prestariam um grande serviço
a suas biografias e à História tentando liberar o acesso
à fita e à ata, se é que não têm nada
a temer.
De mais a mais, a não ser por um suspeito sigilo, não
existe razão para manter secreto o registro de uma reunião
que foi ostensivamente gravada para a posteridade e da qual participaram
duas dúzias de personalidades, além da assistência
de uma dezena de observadores: assessores, ajudantes-de-ordens e oficiais
de gabinete.
A rigor, o único que deveria temer pela divulgação
da fita seria José Celso Martinez Corrêa, porque ela permite
descobrir que na verdade a mais autêntica encenação
tropicalista do ano não saiu de sua cabeça.
Mas de qualquer maneira, com ou sem reprise, o memorável discurso
de Pedro Aleixo não mudou a opinião de qualquer dos outros
22 conselheiros.
Para votar a proposta presidencial, estavam ali dez oficiais-generais
(Augusto Haman Rademaker Grunewald, ministro da Marinha; Aurélio
de Lira Tavares, ministro do Exército; Márcio de Souza
Mello, ministro da Aeronáutica; Afonso Albuquerque Lima, ministro
do Interior; Emílio Garrastazu Médici, chefe do SNI; almirante
Adalberto de Barros Nunes, chefe do Estado-Maior da Armada; general
Adalberto Pereira dos Santos, chefe do Estado-Maior do Exército;
general Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas;
tenente-brigadeiro Carlos Alberto Huet Sampaio, chefe do Estado-Maior
da Aeronáutica; e general Jayme Portella, chefe da Casa Militar),
três oficiais da Reserva (Mário David Andreazza, ministro
dos Transportes: Jarbas G. Passarinho, ministro do Trabalho e Previdência
Social; e José Costa Cavalcanti, ministro das Minas e Energia)
e dez civis (Pedro Aleixo, vice-presidente da República; José
de Magalhães Pinto, ministro das Relações Exteriores:
Antônio Delfim Neto, ministro da Fazenda; Ivo Arzua Pereira, ministro
da Agricultura; Leonel Miranda, ministro da Saúde; Tarso Dutra,
ministro da Educação; Hélio Beltrão, ministro
do Planejamento; Carlos F. de Simas, ministro das Comunicações;
Rondon Pacheco, chefe da Casa Civil; e Luís Antônio Gama
e Silva, ministro da Justiça).
Entre eles, seis eram parlamentares: Aleixo, Passarinho, Magalhães,
Tarso, Rondon e Costa Cavalcanti.
No papel de memorando em que fazia questão de anotar os votos,
o presidente Costa e Silva pôde colocar sim em todos os nomes,
com exceção de Pedro Aleixo, à frente do qual escreveu
"estado de sítio", sublinhado várias vezes.
Os 22 eleitores do sim não apresentaram objeções
nas suas justificativas de voto. Ressalte-se, ao contrário, o
cuidado deles em não deixar dúvidas quanto à disposição
de se colocarem intransigentemente a favor. Se Costa e Silva estava
de fato esperando resistências, ele não chegou a encontrar
nem hesitações. Uns, por inato desapego à dignidade,
outros abrindo mão de suas histórias pessoais, e muitos,
por não tê-las, renunciando à oportunidade de começar
a construí-las, aqueles 22 atores preferiam desempenhar o papel
que o medo e a covardia lhes impunha. Era, como se disse, uma peça
tropicalista: não havia lugar para a ética.
Os tropicalistas achavam que o absurdo brasileiro só poderia
ser devolvido artisticamente pelo choque de elementos dramáticos
antagônicos - o moderno e o arcaico, o rural e o urbano, a tecnologia
e o artesanato, Ipanema e Iracema, banda e Carmem Miranda - encenados
sob a forma de paródia. O resultado, hipertrofiado, revelava
a realidade como o realismo era incapaz de fazê-lo. O problema
é que às vezes a realidade permanecia mais absurda do
que sua paródia, deixando o surreal aquém do real. Naquele
palco, por exemplo, José Celso teria pouco a acrescentar. Os
personagens reais eram suas próprias caricaturas, e o choque
entre o que se propunha e as razões pelas quais se dizia aceitar
o proposto era um jogo de cinismo que nenhuma transposição
dramática conseguiria superar. Além disso, uma retórica
de elipses e eufemismos produzia subversões semânticas
capazes de colocar a palavra democracia - que estava sendo expulsa daquela
mesa e do país - em quase todos os discursos, enquanto a ditadura,
que se instaurava, era tratada como uma ausente distante. Houve até
quem usasse o artifício de condená-la no passado para
melhor aderir à do presente. Outros, considerando-a inevitável,
aproveitaram para seguir o cínico conselho de reação
ao estupro: experimentaram um forçado prazer.
Melhor do que ler a sinopse, porém, é assistir à
peça. Era, como nenhum dos atores desconhecia, uma farsa. Eles
estavam reunidos para celebrar um ritual, uma espécie de missa
negra. Podia-se fingir ali qualquer reação, menos ingenuidade.
Todos sabiam que aquele ato significava o início de uma ditadura
explícita e declarada cujos efeitos eram óbvios.
Como anunciava o texto que todos foram obrigados a ler, ia-se fechar
o Congresso por tempo indeterminado, interrompiam-se as garantias constitucionais
de vitaliciedade, inamobilidade e estabilidade, podia-se cassar, demitir,
transferir, reformar funcionários civis e militares à
vontade e suspendia-se o habeas corpus, o que - com o reforço
da posterior Lei de Segurança Nacional - permitia manter qualquer
preso acusado de delito político em regime de incomunicabilidade
por dez dias - cinco a mais do que o Alvará de 1705, usado para
extorquir as confissões dos Inconfidentes.
Para encenar esse rito de celebração, que inaugurava
o reino do Arbítrio e da Tortura, o elenco se apresentava completo.
O primeiro a dizer a sua fala foi o ministro da Marinha, almirante
Augusto Rademaker, como tal vestido. Parcimonioso nas palavras, ele
fez parte do grupo que, por timidez ou esperteza, deu o seu recado de
forma firme e direta. Ele discordava do vice-presidente e achava que
havia uma situação de fato que não devia ser debatida
"juridicamente, legalmente, ou constitucionalmente". Ele não
tergiversava: "É oportuno fazer qualquer Ato Institucional
como este." Mais sintéticos, só os votos do general
Jayme Portella e de Mário Andreazza, as aparições
mais curtas do espetáculo.
Mas houve os que quiseram roubar a cena e deram um show de representação.
Não necessariamente pela ordem de entrada, merecem destaque especial
Tarso Dutra, Lira Tavares, Ivo Arzua, Jarbas Passarinho, Albuquerque
Lima e Hélio Beltrão.
Tarso Dutra foi o único voto ao qual Costa e Silva, nas suas
anotações sobre os desempenhos, acrescentou ao sim uma
observação: "com modificações".
Era um exagero do anotador. Na verdade, o ministro da Educação
propunha, em lugar do AI-5, um Ato Adicional que não revogaria
dispositivos constitucionais e que poderia ser interpretado como possível
abertura para uma revogação posterior. Em compensação,
para não dar margem a equívocos, ele se dava o direito
de reivindicar a primazia de ter sugerido muito antes, durante uma outra
reunião do CSN, medida semelhante. "Parece, assim, senhor
presidente, que com alguns meses de anterioridade no tempo, eu estava,
por assim dizer, quase que motivando o ato que se deve praticar neste
instante."
Nessa disputa inglória, Tarso tinha como concorrentes o ministro
Ivo Arzua e o general Médici, que reivindicavam a mesma prioridade.
Médici foi enfático: "Acredito, senhor presidente,
que com a sua formação democrática, V.Exa. foi
tolerante demais, porque naquela oportunidade eu já solicitava
a V.Exa. que fossem tomadas medidas excepcionais para combater a contra-revolução
que estava na rua."
Quanto a Rondon, este sim, senão apresentava objeções,
oferecia ao menos uma sugestão restritiva: depois de demonstrar
que o estado de sítio proposto por Aleixo era inviável
por causa de detalhes constitucionais, o chefe da Casa Civil sugeria
que se estabelecesse o prazo de um ano para o recesso do Congresso e
para o próprio Ato Institucional. Não que fosse contra
a medida, mas porque considerava aquele prazo suficiente "para
que o governo possa debelar a subversão e o processo da guerra
revolucionária ora em marcha".
O apoio maciço à proposta da Costa e Silva foi em geral
oferecido com argumentos que faziam questão de reforçar
a necessidade da medida. Falou-se em "contestação
do processo revolucionário" e na ameaça da "contra-revolução".
Pelo menos dois votantes, além de Médici, alegaram esse
risco para darem o seu apoio: Orlando Geisel e Barros Nunes.
O adjetivo "magnânimo", para caracterizar a ação
do presidente Costa e Silva e das Forças Armadas, foi usado por
dois conselheiros, Albuquerque Lima e Ivo Arzua. O ministro da Agricultura,
numa delirante intervenção - que constrange até
hoje os que o ouviram ao vivo ou em gravação -, chegou
a dizer que revidaria com "desforço pessoal", se a
vítima da ofensa fosse ele e não "as magnânimas
Forças Armadas". Depois de registrar que cinco meses antes
já antecipara o seu voto - na reunião do CSN de 16 de
julho - Arzua propunha a instalação de uma Constituinte
e a formação de uma "Nova República".
Só faltou sugerir o Plano Cruzado.
Uma preocupação atraiu muitos adeptos: a que se relacionava
com a "institucionalização", considerada prematura,
do processo revolucionário - ou "autolimitação",
para citar uma palavra usada por Albuquerque Lima e por Passarinho.
O "açodamento" (outra palavra de Passarinho) dessa
institucionalização teria sido responsável pelo
recrudescimento da "contestação" e da "contra-revolução"
- de tal maneira que o próprio AI-5 talvez não fosse suficiente
para barrá-las, ou não tão drástico",
como advertiu o brigadeiro Huet. Por isso, defenderam a sugestão
de dar ao presidente "a possibilidade de realizar certas mudanças
constitucionais" quatro ministros: Orlando Geisel, Albuquerque
Lima, Delfim Neto e Gama e Silva.
A palavra ditadura só foi usada, depois de Aleixo, por três
conselheiros: Magalhães Pinto, Passarinho e Hélio Beltrão.
O primeiro admitia, citando o vice-presidente, que realmente aquele
ato estava instituindo uma ditadura, mas "se ela é necessária,
devemos tomar as responsabilidades de fazê-la".
Passarinho não tinha dúvida de que era "uma ordem
ditatorial" o que se estava instalando ali. "Repugna enveredar
pelo caminho da ditadura", confessava, para ressalvar: "É
esta que está diante de nós." Se era inevitável,
propunha então o ministro do Trabalho: "às favas,
senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência".
Numa longa justificativa em que lembrava a sua condição
de filho de um homem público que "consumiu a vida combatendo
a ditadura", e citava a sua própria carreira pública
com "vários atos claros de repúdio à ditadura,
o ministro Hélio Beltrão parecia à vontade para,
naquele momento, aderir ao regime que sua história familiar abominara.
Ele achava que diante da situação - riscos de desordem,
ameaças ao processo de desenvolvimento - "nenhuma consideração
de ordem puramente formal nos deve afastar da responsabilidade de assegurar
a ordem e a tranqüilidade para o trabalho e o desenvolvimento".
É bem verdade que o seu foi o único voto sim a pedir
cuidado na aplicação da medida: "É na execução
dela que se revelará o conteúdo antidemocrático,
ditatorial ou arbritrário." Ele percebia a dimensão
dos assustadores poderes que o ato encerrava: "Nunca deverão
ser usados para retirar a liberdade de um inocente, daquele que nada
tem a ver com a subversão e a contra-revolução."
As precauções de Beltrão não levavam em
consideração que o AI-5 estava sendo editado não
para proteger inocentes, mas para transformá-los em suspeitos
ou culpados.
A 43ª reunião do CSN foi encerrada com um discurso de
Costa e Silva ressaltando a quase unanimidade do Conselho. "Evidentemente,
houve observações", admitiu, sem lhes dar importância,
"mas apenas de caráter formal e de redação."
Sobre Pedro Aleixo, ele disse: "Peço a Deus que não
me venha convencer amanhã de que ele é que estava certo,
porque ele admitiu mesmo a hipótese do Ato final, porque entendo,
como entende o Conselho na sua sabedoria de maioria, de quase unanimidade,
que nesta escalada o degrau proposto se torna evidentemente desnecessário."
O presidente terminou a sua exposição com um desabafo:
"Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus
princípios e idéias que adoto uma atitude com esta. Adoto-as
convencido de que elas são do interesse do país, do interesse
nacional, que demos um basta à contra-revolução."
Pela primeira vez, em quase duas horas de reunião, a palavra
"violência" era usada para definir o sentimento de alguém
em relação ao ato aprovado. É possível,
como acreditam alguns dos ex-auxiliares presidenciais, que Costa e Silva
estivesse realizando um último esforço no sentido de atrair
seus companheiros de governo para dividirem com ele aquele sentimento
de "violência" - quando nada para uma espécie
de expiação em grupo. Mas os 22 membros dos CSN que votaram
sim permaneceram irredutíveis e mais veementes na defesa do AI-5
do que o próprio autor. Eram, ao contrário de Djalma Marinho,
vassalos mais realistas do que o rei, a quem pareciam dispostos a dar
tudo, inclusive a honra.
Antes mesmo de terminada a reunião, a notícia do AI-5
chegou à Câmara dos Deputados, quando discursava monsenhor
Arruda Câmara manifestando a esperança de que o governo
respeitasse a decisão parlamentar da véspera.
O plenário festivo do dia anterior caiu logo em profundo silêncio
e se transferiu para os corredores e para o gabinete da Presidência,
congestionado por uma meia dezena de parlamentares e jornalistas. O
líder da Oposição queria a convocação
imediata de uma sessão extraordinária, pois achava que
era um dever da Presidência da Câmara tentar qualquer gesto
de resistência, ainda que simbólico. Em função
desse pedido, Martins Rodrigues e José Bonifácio de Andrada,
de apelido Zezinho, mantiveram um áspero diálogo:
- Não existe mais Câmara - disse aquele que não
mais a presidia.
- Não existe é o presidente - revidou o líder.
O deputado Celso Passos, de Minas Gerais como Bonifácio Andrada,
entrou
nesse momento na discussão:
- Seja menos Zezinho e mais Andrada - conclamou.
A resposta de Bonifácio foi uma banana. Decididamente, ele
resolvera ser mais Zezinho.
Às 22h30min, o ministro da Justiça e o locutor Alberto
Cury liam, em cadeia de TV, os seis considerandos e os 12 artigos que
compunham o Ato Institucional nº 5, e mais o Ato Complementar nº
38, que decretava o recesso do Congresso. Foi uma leitura monótona
e ameaçadora como uma sentença de morte: "O presidente
da República poderá decretar..." repetiu incansavelmente
o locutor.
A exemplo daquelas orações, todas regidas por um único
sujeito, 90 milhões de brasileiros, a partir daquele momento,
iriam ser comandados também por uma única vontade.
Dez anos depois, às vésperas da revogação
do AI-5, a maioria dos seus signatários se declarava insatisfeita
com o monstro que havia criado. Albuquerque Lima lamentava "as
características punitivas" da medida que ele apoiara para
permitir - uma década depois ele descobria - "a execução
da reforma agrária". Magalhães Pinto acreditou na
palavra do presidente, que lhe garantira que o ato ia durar apenas "de
seis a oito meses". Ivo Arzua achava que o AI-5 ia possibilitar
a "formação do verdadeiro Estado brasileiro".
Até o ex-ministro da Aeronáutica, marechal-do-ar Márcio
de Souza Mello, dizia que devia "ter sido extinto há muito".
Nos 18 dias de agonia do ato - entre o 13 e o 31 de dezembro de 78
- esse cordão cresceu tanto que o ex-ministro Jarbas Passarinho
chegou a protestar: "Sinto-me entre revoltado e indignado quando
vejo signatários do AI-5 posando hoje de madalenas arrependidas."
Ele tinha razão, mesmo porque era tarde para arrependimentos.
Em dez anos de vigência, o AI-5 já tivera tempo de punir
1.607 cidadãos, dos quais 321 cassados: seis senadores, 110 deputados
federais e 161 estaduais, 22 prefeitos, 22 vereadores - mais de seis
milhões de votos anulados. Além da cassação,
todos os senadores e 100 deputados federais tiveram seus direitos políticos
suspensos por 10 anos. Entre as punições a funcionários
públicos, estavam o afastamento de três ministros do Supremo
Tribunal Federal - Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Vítor
Nunes Leal - e de professores universitários como Caio Prado
Júnior - condenado a quatro anos e meio de prisão por
uma entrevista a um jornal estudantil - Florestan Fernandes, Fernando
Henrique Cardoso, Mário Schemberg, Vilanova Artigas, Hélio
Lourenço de Oliveira e uma dezena de pesquisadores do Instituto
Oswaldo Cruz, entre outros, muitos outros.
Paralelamente a essa caçada aos criadores, o AI-5 desenvolveu
um implacável expurgo nas obras criadas. Em dez anos, cerca de
500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas
de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e
uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovela foram
censurados. Só Plínio Marcos teve 18 peças vetadas.
O índex reunia um elenco variado, que ia de Chico Buarque, um
dos artistas mais censurados e perseguidos da época, a Dercy
Gonçalves e Clóvis Bornay.
A violência, que o marechal Costa e Silva confessou ter sentido
ao editar o AI-5, ia deixar de ser uma figura de retórica. A
partir do dia 13 de dezembro de 1968, ela se abateria de fato sobre
a alma e a carne de toda uma geração.