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Um mito que cai: o do vazio cultural

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A partir do dia 15 de dezembro serão vendidos em bancas de jornais sete livros encomendados pela Funarte a uma editora carioca com um balanço da produção artística brasileira na década de 1970 nos campos da literatura, música popular e clássica, teatro, cinema, televisão e artes plásticas. Para a realização desse trabalho, a Funarte contou com a colaboração de 18 pesquisadores, entre os quais os críticos Heloísa Buarque de Holanda, Marcos Augusto Gonçalves e o poeta Armando Freitas Filho, responsáveis pela retrospectivas de toda a produção brasileira de 1970 em prosa e poesia. O livro se divide em duas partes, 'A ficção da realidade brasileira' e 'Poesia, vírgula, viva', e está com o lançamento marcado para amanhã.

O trabalho de Heloísa Buarque de Holanda e Marcos Augusto Gonçalves teve como ponto de partida uma interrrogação. Os autores quiseram testar se de fato a década de 1970 teria sido amarcada pela escassez na produção literária. Ao final concluíram que isso não havia ocorrido.

A década de 70 não foi tão improdutiva assim: embora sem pretensões de um trabalho definitivo, talvez tenhamos conseguido quebrar o mito do vazio cultural - afirmam.

Numerosas reedições de títulos vieram contornar um momento extremamente difícil vivido pelas editoras logo aos primeiros anos da década. Embora sofrendo pressões bem mais atenuadas que as impostas a outros setores artísticos, a literatura não passou ilesa por esse período. A situação começa a mudar a partir da segunda metade da década. Segundo marcos Gonçalves,a partir de 1975 'a literatura consegue um espaço, fala-se muito em política, há um interesse flagrante de oposição ao fiscal oficial'.

Para os autores, a presença da literatura no debate cultural concorreu para que o escritor brasileiro conquistasse esse mercado e se profissionalizasse, com preocupações que se mantinham latentes até esse momento, entre as quais a de uma sindicalização. Em 1975 há o que já se consagrou chamar de boom literário, a grande preocupação de historiar, testemunhar,fazer umaliteratura documental. Muito próxima ao jornalismo,do qual chegou a usar fórmulas até então jamais tentadas, a literatura nem sempre conseguiu resolver satisfatoriamente do ponto de vista formal essa sua nova tendência, é o que afirmam os autores. Para Marcos Gonçalves, o grande impulso dessa literatura foi a apreensão da totalidade. E 'no mundo de hoje é muito difícil tentar captar essa totalidade'. Segundo os autores, os nomes mais destacados dessa fase de proximidade da literatura com a política e o jornalismo foram José Louzeiro, Paulo Francis, Renato Pompeu, Carlos Sussekind, Raduan Nassar, Ivan Ângelo, Sérgio Santana, Inácio Loyola Brandão e Antônio Torres.

Um outro traço marcante da literatura brasileira na década de 1970 foi a emergência do conto. Os que já vinham escrevendo 'de forma exemplar ratificam a qualidade de seu trabalhjo nessa década' entre esses Rubens Fonseca, J.J. Veiga e Dalton Trevisan.

'Em 1970, Jorge Amado será eleito como referencial, quase um paradigma do romancista bem-sucedido' - dizem os autores. Para eles, a literatura de Jorge Amado é o que se poderia chamar de literatura de 'integração nacional', com folclorização de temas da nacionalidade. O Jorge Amado dessa década continuaria a ser, segundo eles, um escritor ainda voltado para temas que centralizam o homem brasileiro e seus problemas. Só que, dessa feita, ele teria dedicado a uma literatura voltada mais ao sucesso de mercado que propriamente à discussão de problemas de cunho social inerentes aos temas por ele abordados.

No domínio da poesia, a década de 1970 marcou-se pela retomada ampla da poesia de 1922 - afirma o autor da retrospectiva, o poeta e crítico Armando Freitas Filho. Em sua opinião, o que verificaé que ao lado de Carlos Drummond de Andrade - João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes - Jorge de Lima, dois outros nomes - chamarão a atenção das vanguardas em 1970. nessa década, diz o autor, se enfatiza a poesia de Oswald de Andrade e Manuel Bandeira.

A novidade editorial da década introduzida pela poesia marginal é o circuito de mão em mão, em pequenas edições, quase a nível artesanal. Em termos formais essa poesia primará pela abordagem do cotidiano em cima da lição de Oswald de Andrade, ou seja, de maneira desbocada, debochada, nada nobre - observa Armando Freitas Filho. É a década da poesia de reportagem, de revelação instantânea, contextuada na urbe. Nessa poesia não há metáforas, mas não há também uma linguagem linear. É uma poesia de leitura sofisticada, de estilo à base da técnica cinematográfica.

A poesia de 1970 caracterizou-se, segundo o autor, 'pela apreensão do falar coloquial'. Segundo ele, a tendência estilística nítida dessa fase seria exatamente 'não ter estilo'. Ao lado dessa dessacralização de 'estilo' e de linguagem, pode-se notar também uma grande e ostensiva interligação do poeta de páginas com o ppoeta de música.

Dão-nos mostra desse trabalho os poetas Tite de lemos, Geraldo Carneiro, Abel Silva, Capinam e Cacaso.

Armando Freitas Filho lembra ainda que nessa década a poesia começa a se incorporar uma nova dicção, 'mais crua e nua da realidade ideológica e existencial da mulher'. Isabel Câmara, Leila Micolis, Ângela Melin, Aurélia Prado e Ana Cristina César destacam-se nessa nova maneira de expressão em poesia. Bem ao contrário, lembra Armando Freitas Filho, de uma Cecília Meireles ou de uma Henriqueta Lisboa, das quais se dizia que 'escreviam bem como qualquer homem'.

Para o autor, a presença enriquecedora da poesia em 70 foi a de Ferreira Gullar, especialmente por seu 'poema sujo', 'ao mesmo tempo poesia política e memória de infância, uma poesia sem nenhum ufanismo, política, mas de isenção no cotidiano'.para o autor, Ferreira Gullar foi presença indispensável nessa década, como o será na próxima, por seu esforço na construção e por sua naturalidade de expressão. Finalmente, o autor se destaca o que denomina da 'impotência da crítica para analisar essas novas fórmulas de poesia'. Diz que a crítica jamais soube lidar com a contemporaneidade, e que 1970 não fugiria à regra da facilidade de falar dos sacramentados, dos mortos e da dificuldade para lidar com os vivos'.

 

 

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