A obra do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho tem sido objeto de análise
de não poucos trabalhos acadêmicos. Todavia, os comentaristas
de sua obra têm se voltado muito mais para a análise da
sua produção no âmbito do teatro do que para a sua
atuação no cinema e na televisão. Nesse sentido,
embora se reconheça a excelência da produção
teatral do autor, esse estudo centrou-se na tentativa de captar a produção
de Vianinha no contexto de sua época, procurando apreender-lhe
os impasses e utopias numa conjuntura marcada pela repressão
e censura e pelo surgimento de novas oportunidades profissionais num
veículo em plena expansão, a televisão. Cabe lembrar,
no entanto, que Vianinha também escreveu o roteiro do filme O
Casal, dirigido por Daniel Filho, baseado no script que escreveu para
TV, Enquanto a cegonha não vem (1974). E participou dos seguintes
filmes Amor para três (1960), dirigido por Carlos H. Christensen;
Os Mendigos (1963), dirigido por Flávio Migliaccio. No início
dos anos sessenta atuou como ator no episódio Escola de Samba
Alegria de Viver, dirigido por Carlos Diegues, e que acabou integrando,
em 1962, uma das obras clássicas do CPC da UNE, o filme Cinco
Vezes Favela.
Na esfera dessa pesquisa, a investigação das possíveis
articulações entre a dramaturgia de Vianinha e um projeto
nacional de cultura - então debatido em múltiplas instâncias
da sociedade brasileira, terminou por revelar o sentido atribuído
pelo dramaturgo a atuação num veículo da mídia
como a televisão. Esse procedimento tornou possível o
mapeamento dos conceitos e postulados que ancoraram o plano criador
do artista de modo a situá-lo no interior das discussões
acerca dos caminhos da cultura brasileira e implicou a captação
das soluções adotadas pelo dramaturgo para resolver os
dilemas decorrentes de opções estéticas e convicções
ideológicas que marcaram a confecção de scripts
para televisão.
Apreender o percurso criador de Vianinha no circuito televisual demandou
a percepção da sua contribuição no tocante
à chamada construção da linguagem televisiva e
o acompanhamento da materialidade das produções circunscritas
aos núcleos de criação emergentes no período
de expansão da TV brasileira, às técnicas e gêneros
então experimentados. Tomando como referencial os enfoques desenvolvidos
na adaptação de Medéia e criação
de Casos Especiais como: Matador; Morto do Encantado; Aventuras de uma
moça grávida; Ano novo, vida nova; Turma, doce turma e
do seriado A Grande Família, buscou-se identificar as temáticas
abordadas, o perfil das personagens e as singularidades das locações,
de modo a analisar a investidura do dramaturgo numa dada linguagem que
procurava desvelar os impasses vivenciados pela classe média
e propunha a politização do cotidiano.
A disposição de refletir sobre as questões mais
urgentes da sociedade brasileira e de problematizar as vivências
das pessoas comuns através da dramaturgia, anunciada desde os
tempos do teatro universitário (anos 50), daria a tônica
do trabalho desenvolvido por Vianinha na televisão, na segunda
metade da década de sessenta e nos primeiros anos da década
seguinte. Nesse horizonte, a teledramaturgia seria interpretada pelo
dramaturgo como uma modalidade de trabalho privilegiada, uma alternativa
para driblar a censura que cerceava as atividades teatrais e de abrir
novas possibilidades de popularização para sua arte.
A postura assumida por Vianinha em relação a teve e,
em especial, sua opção de integrar o núcleo de
criação da Rede Globo, foi recebida com muitas reservas
por parte das organizações de esquerda, em particular
pelo PCB - partido ao qual manteve-se filiado desde a juventude. As
restrições eclodiam tanto no campo político, quanto
no profissional. Enquanto os militantes tendiam a acusá-lo de
compactuar com uma emissora sobejamente conhecida pelas ligações
que mantinha com o regime militar instalado após o golpe de 1964,
a crítica especializada não desqualificava apenas os scripts
televisivos, mas o deslocamento da sua produção para o
gênero cômico (no teatro e na TV). Contudo, os depoimentos
e entrevistas do dramaturgo revelaram que na sua opinião ambas
as desconfianças não se justificavam pois a televisão
lhe parecia um espaço a ser conquistado pelo artista e pelo intelectual
engajado, enquanto a representação cômica configurava-se
como um gênero que não invalidava a crítica, como
faziam crer aqueles que a consideravam apenas capaz de promover a conciliação
e a conformidade. Pelo contrário, Vianinha, sempre que tinha
oportunidade, ressaltava que a comicidade tornava a crítica muito
mais perspicaz e a televisão despontava como espaço de
reconhecimento das relações humanas e da reiteração
de determinados valores.
Não por acaso, seus experimentos na esfera cômica parecem
ter sido intensificados na segunda metade da década de sessenta,
num período no qual outros canais de expressão sofriam
intensa vigilância. À época o dramaturgo dedicou-se
à escritura da peça de teleteatro O Morto do Encantado,
saúda, morre e pede passagem, premiada, em 1965, no Concurso
de Dramaturgia da TV Tupi, e mais tarde, montada como caso especial
na TV Globo. Posteriormente, se ocuparia da redação dos
episódios de A grande Família, em parceria com Armando
Costa. O tom da comicidade projetado por Vianinha para as personagens
televisivas partia de ambientações projetadas no cenário
urbano, reforçadas por sonoridades que acabavam compondo uma
atmosfera traspassada por diferentes níveis de humor que incluíam
trapaças e caçoadas, brincadeiras e hostilidades. Nesses
programas eram comuns as referências ficcionais habituais aos
telespectadores e a apresentação de histórias com
evidente similaridade ao exercício diário das vivências
- aspecto que o colocava em sintonia com a produção industrializada.
Do ponto de vista metodológico, a percepção desses
elementos tornaram imperiosas algumas observações. A mais
urgente dizia respeito as interpretações acerca do caráter
e do alcance desse tipo de dramaturgia no âmbito da produção
de cultura industrializada que, por sua vez, ancorava-se numa visão
positiva desse tipo de comicidade; a outra encaminhava-se para uma crítica
mais negativa do conteúdo e da repercussão da mesma. Nesse
contexto, fazia-se necessário reconhecer que da primeira vertente
aproximavam-se os estudos contemporâneos ancorados na idéia
de que o riso popular ambivalente - como frisaria Mikhail Bakhtin -
expressa(va) uma opinião sobre um mundo em plena evolução
no qual estão incluídos os que riem (1987:11). Num outro
enfoque, despontavam as análises assentadas nas reflexões
de Jean Claude Bernadet, cuja abordagem apontava elementos menos positivos
nesse tipo de linguagem humorística, uma vez que reconhecia na
avacalhação um jogo contraditório marcado pelo
desejo de degradar ou macular o modelo opressor, mas que simultaneamente
contribuía para reafirmá-lo (1979: 81-82). No entanto,
o rir de si mesmo, identificado por Bernadet como uma das características
negativas da chanchadas e de suas paródias, visualizado como
síntese da cartase que aliviaria o complexo de inferioridade
de um público/povo que se despreza quando se compara aos países
industrializados, seria, todavia, entendido por Bakhtin, como um traço
típico da comicidade popular.
A despeito de ambas as vertentes interpretativas, detectou-se que o
desvendamento da produção humorística implicava
a compreensão de sua dinâmica e de suas tentativas de dialogar
com o espectador. Se a paródia presente na ficção
televisiva integrava elementos oriundos do universo no qual subsistiam
o grotesco, o excesso e a inversão de valores (se não
a sublevação), tal como assinalavam os observadores mais
críticos, os vínculos estabelecidos entre o público
e o audiovisual concorriam para a gestão e o florescimento da
criatividade, e ainda, apontavam para determinados recortes da realidade
recriada.
Por outro lado, as freqüentes referências ao fantástico
ou a capacidade sonhadora do ser humano detectadas nos programas cômicos
desenvolvidos pelo dramaturgo na televisão também apontavam
para a mistura de elementos comuns à commedia dell'arte e ao
teatro circense, num processo de reinvenção ou remodelagem
de velhos formatos humorísticos. Sem dúvida, os rearranjos
entre os formatos mais antigos e novos na feitura do humor na televisão
tendiam a decorrer, segundo Raymond Williams, do processo de adaptação
de velhas formas para uma tecnologia modificada com as audiências
que a televisão envolvia (1975: 66). Como tal, concluiu-se que
esse universo ficcional televisivo carregava consigo heranças
seculares e reunia experiências remanescentes do teatro de circo,
do cinema e do rádio, e muitas vezes, remetia a uma farsa que
contemplava uma exibição dualística de uma temática
que pressupunha o simultâneo acesso à técnica e
à improvisação, ao rigor e à liberdade de
criação corporal e textual, à realidade e ao sonho.
O ritmo frenético adicionado ao suspense corrobora para a criação
de um clima propenso ao riso (MEYER, 1991).
Em síntese, o estudo ocupou-se ainda da reflexão sobre
a conjuntura histórica que marcou a sociedade brasileira, nos
anos de intensas mobilizações políticas e acirrados
debates referentes à cultura e à modernização,
de modo a captar as tensões existentes entre arte e política,
arte engajada e cultura de massas, levadas a termo na dramaturgia desenvolvida
por Vianinha na esfera da televisão, enfatisando, particularmente,
sua desenvoltura na esfera cômica.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.
São Paulo: Editora da Universidade de Brasília/HUCITEC,
1987.
BERNADET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MEYER, Marlyse. Pirineus Caiçara. Da commedia dell'art ao bumba-meu-boi.
Campinas: Editora da Unicamp, 1991.
WILLIAMS, Raymond. Television: technology and cultural form. Nova Iorque:
Schoken Books, 1975.