Voltar à principal


Cinema Novo: vigilância e paranóia

Denise Assis

Músicas
Textos
Áudio & Vídeo
Na TVE e Rádio MEC

Um dossiê localizado por no. no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, onde pode ser pesquisado, exibe informações reunidas pelo regime militar, sobre os cineastas que compunham o Cinema Novo. Sob o título "Considerações Gerais Sobre o Cinema Novo, no Brasil", apócrifa e sem data, a brochura acusa os cineastas de "denegrirem a imagem do país" e militarem na esquerda, além de pagarem jornalistas estrangeiros para denunciar a tortura cometida pela ditadura contra os presos políticos brasileiros.

Ao ser apresentado ao documento, o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto, exaustivamente citado, ao lado de Glauber Rocha, Leon Hiszman, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Sarraceni, Nelson Pereira dos Santos, Gustavo Dahl e outros, entremeou boas gargalhadas com surpresa e desdém. Gargalhadas, pelos absurdos descritos. Surpresa, por constatar que uma advertência feita a ele em pleno governo João Figueiredo por uma fonte militar, em Brasília, procedia. Desdém, pela total desinformação demonstrada pelos órgãos de segurança da época, coomo desconfiava.

"O Carlos Lacerda tinha razão. Quem deveria ganhar o salário do SNI eram os jornalistas. Esses caras não trabalhavam. Eles se limitavam a recortar as notícias de jornais e fantasiar em cima. Eram uns desinformados", comentou.

Com 24 páginas, o dossiê faz afirmações como as seguintes: "Muitos cineastas brasileiros - quase exclusivamente os do grupo do cinema novo - têm participado ativamente da campanha de calúnias de que vêm sendo alvo o governo brasileiro e o próprio país, no exterior. Essa ação anti-brasileira não começou em 1969, ano em que praticamente "explodiu" na imprensa estrangeira. Vinha sendo preparada desde 1965, pelo menos. Já naquele ano, como também nos subseqüentes, vários cineastas brasileiros (e cita a lista acima) faziam críticas severas ao governo brasileiro, quando entrevistados por jornais e revistas da Europa, principalmente na França, Itália e Alemanha. Quando não se compraziam em atacar o regime brasileiro, eles faziam declarações nitidamente subversivas, manifestando sua aprovação dos atos de terrorismo na América Latina, isso muito antes de ter início o terrorismo no Brasil."

O que provocou riso em Luiz Carlos Barreto foi a informação contida no trecho a seguir: "Glauber Rocha declarava, reiteradamente, sua admiração por Che Guevara e pelo francês Régis Debray, que havia sido preso como guerrilheiro, na América do Sul. Na mesma ocasião, o produtor-chefe do cinema novo, Luis Carlos Barreto, inaugurou com um coquetel um poster enorme de Che Guevara, que pregara na parede de sua casa em Botafogo."

Segundo Barreto, sua casa tinha mesmo na parede um poster do Guevara, "mas nunca dei coquetel para inaugurá-lo. Isso é criação pura. Uma bobagem", repisa. Luiz Carlos afirma que esse dossiê foi produzido (segundo sua fonte militar), por Guilherme Figueiredo, enquanto adido cultural no governo do irmão, e entregue ao embaixador da França e membros do SNI. "Agora eu não tenho mais a menor dúvida. Essas são as informações passadas por ele e acrescidas de mais algumas que os informantes foram juntando para mostrar serviço. Há verdades e mentiras nisso tudo", opina.

"A maioria dos filmes de contestação (cinema novo) apresenta temas de conotação política e se desenrola em ambientes propícios à especulação política (Nordeste, favelas), quando não diretamente de assuntos políticos (casos de Terra em Transe, Os Herdeiros, Jardim de Guerra, A Vida Provisória, O Bravo Guerreiro - realizados, respectivamente, por Glauber Rocha, Carlos Diegues, Neville d'Almeida, Maurício Gomes Leite e Gustavo Dahl). Às vezes, chegam até a pretender contestar a Revolução de 31 de março (caso de O Desafio, de Paulo César Sarraceni). Quase todos esses filmes, entretanto, atenuam as imagens através de um diálogo obscuro (que eles dizem ser simbólico)."

O documento acusa os cineastas de enviar clandestinamente os filmes proibidos para a Europa e lá legendá-los com outros textos, dando-lhes caráter mais político ainda. "A imagem do Brasil que eles propagam dessa maneira, é a mais deprimente", reage o redator do dossiê. Que alguns filmes proibidos saíram do país de maneira clandestina Luiz Carlos Barreto não nega. "Era a única forma de mostrar Terra em Transe no festival de Cannes", recorda. A operação, de alto risco para a época, foi organizada pelo grupo e quem se dispôs ao ato heróico de transportá-lo no fundo da mala foi o ator José Lewgoy.

D. Lúcia Rocha, mãe de Glauber, ficou sabendo da operação que salvou o filme do filho, mas não gosta de falar no assunto. "O Gláuber sempre me poupou dessas conversas. Ele não queria que eu me preocupasse, mas me lembro que o filme saiu daqui em clima de fuga".

A posse de Ricardo Cravo Albin na direção do Instituto Nacional do Cinema e da Embrafilme, mereceu o seguinte comentário nas tais 'considerações': "Agora eles estão seguros de que não lhes faltará ajuda financeira em larga escala, sob a forma de financiamentos e prêmios em dinheiro." O dossiê detalha nomes, tem tom de fofoca e não exibe provas. Limita-se a acusar. Mas, a exemplo do efeito produzido em Luiz Carlos Barreto, é curioso e diverte. Hoje.

Fonte: no. em 01.Fev.2002

Fale com o WebMaster
Melhor visualizado em 800x600
©Copyright 2004– TVE Rede Brasil