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Filmes que o Brasil não viu

Denise Assis [ 01.Fev.2002 ]

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Hoje o Brasil sabe muito sobre a censura nos anos de chumbo. Mas agora poderá saber melhor o que exatamente foi censurado, e mais, com que humor os censores decidiam seus cortes. Em 1972, o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, por exemplo, não foi alvo só da tesoura, mas também da ira de sua censora. "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à Sétima Arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente filme", escreveu a chefe da turma da censura cinematográfica da época, em seu parecer sobre o filme À meia-noite encarnarei em teu cadáver.

Trinta anos depois, Mojica Marins é um cult do terror nacional e sobreviveu para conhecer melhor quem o assombrava. Estes registros estão disponíveis no Arquivo Nacional, que catalogou e higienizou filmes examinados pela Censura Federal entre 1968 e 1988. O trabalho é da equipe da Coordenação de Documentações Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional, onde está guardado esse acervo. Os processos com os pareceres dos censores se encontram na Superintendência Regional do Arquivo Nacional em Brasília, liberados para consulta.

Até a extinção do Departamento de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal, em 88, cerca de 25 mil filmes foram submetidos ao exame da Censura Federal. As curiosidades são muitas, e o próprio filme de Zé do Caixão chegou a merecer algumas ressalvas da censora (cujo nome está ilegível no documento): ela louva "o esforço dos técnicos que colaboraram neste 'filme', pois em som e imagem são muito bem apresentados, ao contrário de outras películas nacionais que vemos aqui neste Serviço de Censura". Mas o aplauso da censora/cinéfila dura pouco e ela decide pela "não liberação" do filme: "Nus, cenas de ataques sexuais, terror, etc. são a constante que, a meu ver, não possibilitam a liberação da referida película".

Os documentos do Arquivo Nacional mostram que o regime militar não considerava o cinema o meio mais perigoso para propaganda subversiva. O ambiente da sala escura é descrito como "estranho ao espectador", o que acionaria o seu "autocontrole", tornando-o menos "receptivo às imagens negativas que chegam ao seu subconsciente."

Segundo José Ivan Calou, coordenador substituto da seção de audiovisuais do Arquivo, nem sempre os pareceres expunham o motivo da censura. "Os censores seguiam critérios técnicos. O que tornava a censura ainda mais arbitrária eram as interferências das camadas superiores." Ivan ilustra o que diz com o filme Queimada, do italiano Gillo Pontecorvo, que foi liberado pelos censores, mas ao ser visto por um general no cinema foi imediatamente interditado a pedido dele. O motivo eram referências ao colonialismo na América latina e alusões ao Brasil da monocultura.

Sexo, caratê e Tom & Jerry

Cortes feitos em filmes que ficariam famosos, como A Dama do Lotação, de Neville D'Almeida (1977), podem parecer hoje mais obscenos do que a cena que se quis esconder. No parecer que determina os 13 minutos proibidos no filme, assinado pelo diretor da DCDP, o censor Rogério Nunes, está escrito: "Cena do interior de um ônibus - cortar desde o momento em que a câmera detalha os movimentos do homem comprimindo o sexo nas nádegas de Solange, até que os dois são focalizados da cintura para cima."

Apesar do corte, o filme foi um sucesso. "Com esse filme Deus me deu de volta tudo o que perdi. Só não recuperei os 10 anos de sofrimento e privação material", diz Neville D'Almeida, que tem vários produtos inéditos aparecendo na peneirada do Arquivo Nacional. Um deles é Jardim de Guerra, de 1967, com roteiro dele e de Jorge Mautner, estrelado por Hugo Carvana, Antônio Pitanga, Glauce Rocha, Dina Sfat e Nelson Xavier. Nelson Pereira dos Santos fazia uma ponta.

No filme, um homem é contratado para levar uma mala até um navio no cais. A valise contém armas e ele é preso, torturado e enviado a um campo de concentração como uma pessoa de esquerda. "Quando o filme ficou pronto veio o Ato Institucional nº 5 e ele foi considerado premonitório, pois antecipou tudo que estava por vir", conta Neville. "Era um filme político que falava de Che Guevara, Mao Tse Tung e guerra fria." Piranhas do Asfalto e Mangue-Bang também permaneceram inéditos (o segundo ele confessa que nem chegou a mandar para a Censura).

Os censores eram treinados para ler nas entrelinhas. E mesmo que elas não existissem, eles as encontravam. A exibição do desenho Tom e Jerry, por exemplo, ensejou longo debate. A polêmica terminou com o veredito emitido pela censora Lenir de Souza, que em seu parecer concluiu que a dupla não oferecia maiores ameaças. "Seu objetivo principal é motivar a criançada a defender os mais fracos e a repelir a desonestidade."

O bom e velho personagem careca do Kung Fu também não parecia politicamente inocente para alguns. Em 1974, o general Antônio Bandeira, então diretor da Polícia Federal, disse numa palestra que o seriado de TV sobre caratê, estrelado por David Carradine, poderia criar uma associação subliminar com o ato de se fazer justiça com as próprias mãos. Do ponto de vista do risco social o perigo dobrava. Segundo ele, o filme generalizava a desconfiança no governo/autoridade.

Ainda na TV, outro herói que teve a implicância dos militares foi o americano Bat Masterson, cuja bengala sempre em riste chegou a ser entendida como símbolo fálico. No cinema, esse tipo de sutileza interpretativa barrou artistas como Sam Peckinpah, autor da obra-prima Meu ódio será tua herança - classificado pela turma do Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP) como "especialista em violência subversiva".

Censor recomenda artigo de Marighela no 'JB'

Na proibição de Guerra dos Pelados, de Silvio Back, em 71, o censor hesita quanto ao real perigo do filme, mas é firme na agressão à gramática. Roberto Antônio Coutinho escreveu tratar-se de um filme "de mensagem duvidosa e conteúdo perigoso, por conter tortura, violência e ainda talvez de fundo 'subversivo', sem nenhuma solução pacífica". A paz não parecia ser sua especialidade.

A esta altura, o distribuidor Livio Bruni já havia experimentado a interdição, em 1968, do documentário do italiano Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel, sobre a luta pela independência na colônia francesa. O processo de interdição mostra que o filme rodou por quartéis e centros de formação de agentes de todo o país, onde era exibido para ilustrar as aulas. O censor Wilson de Queiroz Garcia escreveu que o filme, se liberado, "seria o estopim que falta ser aceso para a luta terrorista no Brasil". Quem achasse um exagero, que lesse o "JB" da véspera: "A título de ilustração para o que dizemos, leia-se 'Algumas Questões Sobre a Guerrilha no Brasil', do comunista Carlos Marighella, publicada no Jornal do Brasil de ontem, domingo, dia 15 de setembro de 1968."

Os censores às vezes mostravam seus cacoetes de críticos de cinema. Com sotaque próprio, evidentemente. José Mojica teve o seu Quando os Deuses Adormecem liberado em 28 de janeiro de 1972 pelo censor Osmar Fialho, para maiores de 18 anos e com cortes. No parecer, ele justifica a falta de qualidade: "O filme apresenta imagens negativas de miséria, favelas, bordéis, traições, etc., inclusive cenas sexuais excitantes, que o exime da exibição aos menores de 18 anos. Por conter cenas desprimorosas para o Brasil e pela ausência de uma técnica mais perfeita (excesso de representação - falta de autenticidade), opino pela liberação sem as chancelas de 'boa qualidade' e de 'livre exportação.'

Mais sorte teve Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos. Caiu nas mãos das censoras Marlene R. Celani e Isabel Maria Martins de Carvalho, que abrem o parecer classificando-o como "de boa qualidade" e "livre para exportação", além de tecerem rasgados elogios: "Um filme que honra a indústria cinematográfica nacional, tanto pelo enredo como pela técnica e atuação dos atores." E prosseguem entusiasmadas: "o filme torna-se uma obra digna de ser vista pelos nossos jovens, considerando-se entretanto, algumas cenas de cama com pequeno erotismo, assassinato por um policial sem motivo e alguns palavrões que se encaixam devidamente no contexto." Levando em conta o valor das "mensagens positivas da película" elas decidiram pela "liberação com impropriedade para menores de 16 anos, sem cortes".

Censura vê deboche contra Cristo

Unir sexo e religião era meio caminho para a gaveta. O filme Sexta-Feira da Paixão, inscrito por Livu Norbert Spiegler no Festival de Brasília em 1971, categoria curta metragem de 35mm, sequer chegou ao destino. Foi apreendido no Aeroporto de Congonhas pela Polícia Federal e, desde então, passou a existir só para os ofícios e memorandos.

Os censores o descreveram assim: "É deprimente como se pretende, com este filme, aviltar a religião, denegrir a Igreja, debochar com as mais caras tradições cristãs. O autor faz, no filme, o relacionamento da Paixão de Cristo com a paixão carnal, o ato sexual praticado naquele dia reverenciado pela Igreja. E como se isso não bastasse, o texto narrado no curso do filme - durante o qual são mostradas pinturas de atos sexuais e de nus - é todo ele debochativo, insultuoso. Isto posto, opino pela interdição deste filme, seja para o VII Festival do Cinema Brasileiro, seja para o circuito normal, por ferir às coletividades e à religião." Sexta Feira da Paixão continua inédito.

Um dos caminhos encontrados no período pelos produtores nacionais foi a indústria da pornochanchada, que não assustava o regime. Mas também sofria. Bacanal de colegiais, por exemplo, produzido por Ruan Bajon, sofreu uma pequena intervenção cirúrgica da censora Solange Maria Teixeira Hernandes, a severa D. Solange, em agosto de 83: "Suprimir enfoque do órgão sexual masculino, eliminando a tomada em que o rapaz carrega a mulher para a cama, expondo o falo."

Mas mesmo com a tesoura, o bom cinema brasileiro encontrou suas brechas nesses vinte anos. A produtora Lucy Barreto recorda que ele ocupou, entre 1968 e 1988, 45% da fatia interna do mercado exibidor, com obras como: Guerra conjugal e Macunaíma, ambos de Joaquim Pedro de Andrade; Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos; A Dama do lotação, de Neville d'Almeida, e Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto.

"Por um lado foi um momento muito sofrido, quando o Glauber se exilou, o Cacá Diegues se exilou, o Neville, e outros duramente atingidos na sua produção. Por outro, tivemos um momento rico, quando precisávamos buscar uma linguagem cheia de metáforas para driblar a censura". Lucy diverte-se agora, ao lembrar que esse exercício era tal, que levou o filme Um Asilo Muito Louco, de Nelson Pereira dos Santos, "a ficar tão louco a ponto do espectador não entender nada."

Fonte: no.

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